Sergio Moro finalmente apresenta seu plano de governo para disputar o Palácio Iguaçu. Segundo a campanha, o documento foi construído a partir de 6.338 sugestões recebidas dos 399 municípios do Paraná, além de contribuições de mais de 100 entidades e de mais de 200 especialistas. A proposta deve ser protocolada no TRE-PR nesta sexta-feira (14).
O número impressiona. 6.338 sugestões. 399 municípios. Mais de 100 entidades. Mais de 200 especialistas.
Tudo muito grandioso.
Mas existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita: se foram necessárias mais de seis mil sugestões para descobrir o que o Paraná precisa, por que isso não apareceu antes no discurso de Sergio Moro?
Essa é a questão central.
Durante meses de pré-campanha, Moro construiu sua imagem eleitoral muito mais em torno de temas nacionais do que propriamente de uma agenda paranaense. Corrupção, PT, Lula, bolsonarismo, segurança pública, Lava Jato e a política de Brasília ocuparam espaço muito maior em suas manifestações públicas do que problemas concretos do Estado.
E isso não é uma impressão meramente retórica.
Até quando fala de segurança, uma de suas principais bandeiras, Moro costuma fazê-lo a partir de uma perspectiva nacional. Em entrevista recente, por exemplo, apresentou a proposta de criar uma agência estadual anticorrupção e defendeu autonomia para as forças de segurança. São propostas que podem, evidentemente, ser discutidas pelo eleitor paranaense. Mas ainda existe uma diferença entre apresentar algumas ideias para o Estado e construir uma candidatura verdadeiramente ancorada na realidade paranaense.
O Paraná não é Brasília
Esse talvez seja o maior problema político de Moro.
O candidato possui uma trajetória nacional muito conhecida. Foi juiz da Lava Jato, ministro da Justiça, senador e protagonista de alguns dos maiores embates políticos do país nos últimos anos.
Mas governar o Paraná é outra coisa.
O governador precisa saber o que acontece em Paranaguá, Foz do Iguaçu, Londrina, Maringá, Cascavel, Ponta Grossa, Guarapuava, Francisco Beltrão, Umuarama, Apucarana e nos pequenos municípios do interior.
Precisa discutir logística, produção agrícola, industrialização, saneamento, saúde regional, educação profissional, estradas, portos, energia, habitação, turismo, segurança de fronteira e desenvolvimento econômico.
Precisa saber quais são os gargalos de cada região.
É justamente essa dimensão estadual que a campanha agora tenta demonstrar ter capturado por meio das 6.338 sugestões.
O problema é que um mapa de demandas não substitui experiência administrativa.
A diferença de discurso para Sandro Alex
A comparação com Sandro Alex é inevitável.
Enquanto Moro chega agora com um plano elaborado a partir de uma grande consulta popular, Sandro procura apresentar sua candidatura como resultado de uma experiência concreta dentro da administração estadual.
Seu plano de governo tem como uma das principais metas preparar o Paraná para alcançar a terceira maior economia do Brasil, com propostas específicas para infraestrutura, crédito, industrialização, agronegócio, educação e desenvolvimento regional. Entre as metas estão mais de 300 quilômetros de rodovias de concreto e programas de financiamento para empresas, produtores, cooperativas e municípios.
E há uma diferença de origem.
Sandro não precisa dizer apenas que ouviu os paranaenses. Ele pode dizer que já passou anos executando políticas públicas no Paraná.
Isso não garante que suas propostas sejam melhores. Mas estabelece uma diferença importante na disputa: conhecimento adquirido pela administração versus conhecimento produzido pela consulta eleitoral.
O plano de Moro chega depois da polêmica
Há ainda um detalhe politicamente desconfortável.
Moro registrou sua candidatura sem apresentar inicialmente o plano de governo, situação que provocou questionamento do PSD no TRE-PR. A campanha passou a anunciar que entregaria o documento posteriormente.
Agora, às vésperas do encerramento do prazo, aparece o documento com as 6.338 sugestões.
Do ponto de vista político, fica a impressão de que o plano chegou depois da candidatura — e não antes dela.
E isso permite uma crítica legítima: como pedir ao eleitor que escolha alguém para governar o Estado sem apresentar, no momento do registro, aquilo que pretende fazer?
A campanha pode explicar que o processo de elaboração foi longo e que o documento estava sendo finalizado. Juridicamente, a questão será decidida pela Justiça Eleitoral. Politicamente, entretanto, o episódio deixa uma pergunta que não desaparece com a entrega do documento.
Seis mil sugestões não são seis mil propostas
Outro ponto merece atenção.
É preciso separar escuta popular de programa de governo.
Receber 6.338 sugestões é positivo. Demonstra disposição para ouvir. Mas governar exige mais do que ouvir.
É preciso escolher prioridades, estabelecer metas, calcular custos, definir cronogramas, identificar fontes de financiamento e determinar indicadores para saber se aquilo que foi prometido está sendo cumprido.
A própria metodologia anunciada pela campanha diz que as sugestões foram organizadas por município e região e posteriormente cruzadas com propostas técnicas, análises de viabilidade e orçamento.
É justamente aí que o plano terá de ser testado.
Porque o eleitor não precisa apenas saber o que os paranaenses sugeriram.
Precisa saber o que Moro pretende fazer, quanto vai custar, de onde virá o dinheiro e em quanto tempo será realizado.
O problema da candidatura nacional
Existe ainda uma questão política mais profunda.
Moro parece ter dificuldade de abandonar a persona nacional construída ao longo de sua carreira.
Mesmo agora, disputando o Governo do Paraná, o debate em torno de sua candidatura continua frequentemente contaminado pela política nacional. A própria ausência no primeiro debate da Band foi justificada por ele com uma acusação de "jogo combinado" entre PT e PSD para atacá-lo.
Mais uma vez, o Paraná ficou em segundo plano.
E é exatamente isso que seus adversários poderão explorar.
O eleitor não vai escolher um senador, um ministro da Justiça ou um juiz da Lava Jato. Vai escolher um governador.
Essa mudança de função exige também uma mudança de discurso.
O governador não pode governar olhando permanentemente para Brasília.
Agora começa o verdadeiro teste
O plano de governo de Moro pode, evidentemente, mudar essa percepção.
Se as 6.338 sugestões resultaram em propostas concretas, regionalizadas, financeiramente viáveis e capazes de responder aos problemas do Estado, o documento poderá dar à candidatura uma dimensão que até agora faltava.
Mas, se for apenas uma enorme compilação de demandas genéricas revestida de números impressionantes, terá sido muito barulho para pouca novidade.
E aqui está a provocação que a campanha de Moro precisa responder:
onde estava o Paraná antes das 6.338 sugestões?
Porque o Paraná já estava aqui.
Já tinha problemas de infraestrutura, desafios na saúde, necessidades na educação, demandas do agronegócio, questões ambientais, gargalos logísticos e uma economia que busca avançar da quarta para a terceira posição nacional.
Enquanto Moro falava sobre PT, corrupção e política nacional, o Paraná continuava funcionando.
Agora, com o plano finalmente apresentado, a cobrança precisa ser outra.
Menos Brasília. Mais Paraná.
Menos Lava Jato.
Mais planejamento estadual.
Menos discurso sobre adversários nacionais.
Mais respostas sobre o que será feito em cada região do Estado.
Porque governar o Paraná exige muito mais do que uma biografia nacional.
Exige conhecer o Paraná — e, principalmente, saber o que fazer com ele.
E essa é uma resposta que não pode caber apenas em 6.338 sugestões.
