O calendário eleitoral marcou o dia 16 de agosto como o início oficial da propaganda eleitoral. Desde domingo, candidatos podem pedir votos de forma explícita, fazer campanha na internet, promover comícios, caminhadas, carreatas e distribuir material gráfico, dentro das regras estabelecidas pela Justiça Eleitoral.
Mas seria ingenuidade dizer que a campanha começou agora.
Ela já está nas ruas há meses.
O que começou neste domingo foi uma nova etapa: aquela em que a disputa deixa de ser predominantemente uma sucessão de articulações partidárias, convenções, pesquisas e pré-campanha e passa a ser, formalmente, uma disputa direta pela atenção e pelo voto do eleitor.
E isso muda bastante o jogo.
O rádio e a televisão entram em cena
A partir de 28 de agosto, começa o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, que seguirá até 1º de outubro, três dias antes do primeiro turno. Além dos programas em rede, as emissoras deverão veicular inserções ao longo da programação.
É um momento particularmente importante porque televisão e rádio ainda conseguem alcançar públicos que não acompanham diariamente a política pelas redes sociais.
E existe outro detalhe: ninguém chega ao horário eleitoral improvisando.
Cada segundo de televisão custa planejamento. Texto, imagem, enquadramento, cenário, trilha, discurso, linguagem corporal, escolha das palavras e definição do público-alvo são trabalhados por equipes de comunicação.
É aí que entram os especialistas em marketing político, jornalistas, publicitários, produtores audiovisuais, estrategistas digitais e profissionais de pesquisa.
O candidato que aparece na televisão não é exatamente o candidato que simplesmente abriu a câmera do celular e começou a falar.
Há uma construção por trás, e será justamente essa construção que o eleitor começará a comparar.
A primeira experiência já aconteceu na Band
Antes mesmo do início oficial da propaganda eleitoral, a Band Paraná abriu a temporada de debates, em 9 de agosto. A emissora havia definido regras com representantes dos partidos e estruturado o confronto em blocos de perguntas, respostas, réplicas e tréplicas.
O episódio também produziu uma questão política importante: Sergio Moro não participou do debate, embora tivesse sido incluído entre os candidatos previstos originalmente.
A ausência passou a fazer parte da própria campanha.
Debate não é apenas um programa de televisão. É também uma oportunidade para o candidato demonstrar capacidade de argumentação, responder a adversários e apresentar propostas sob pressão.
Por isso, a decisão de comparecer ou não comparecer deixa de ser apenas uma questão de agenda. Ela também comunica.
No caso de Moro, a ausência foi duramente explorada pelos adversários e certamente continuará sendo lembrada quando outros debates forem marcados.
Agora vêm as sabatinas
E o calendário de exposição não ficará restrito aos debates.
O Bem Paraná começa nesta segunda-feira (17) uma série de sabatinas ao vivo com candidatos ao Governo do Paraná e ao Senado. Segundo o próprio jornal, cada encontro terá 40 minutos e será conduzido por uma bancada formada por jornalistas mulheres, com participação também de estudantes de Jornalismo da PUCPR e da Universidade Positivo nas perguntas.
A estreia desta segunda-feira é com Dr. Rosinha, candidato ao Senado pelo PT; Requião Filho será sabatinado na terça-feira (18), e Samuel de Mattos, do PSTU, na quinta-feira (20).
O Bem Paraná define o objetivo das sabatinas como oferecer aos eleitores um espaço para conhecer propostas, posicionamentos e prioridades, contribuindo para um debate democrático e plural.
E é exatamente isso que se deve esperar.
Jornalismo eleitoral precisa ser rigorosamente isento
Uma eleição democrática não exige que jornalistas tenham ausência de opiniões pessoais. Jornalistas são cidadãos e, como qualquer cidadão, podem ter convicções políticas, ideológicas ou partidárias.
O que se exige no exercício profissional é outra coisa: isenção na condução da entrevista, equilíbrio na formulação das perguntas e tratamento equânime entre os candidatos.
Essa distinção é fundamental.
Não seria correto presumir que uma jornalista será parcial simplesmente por sua trajetória profissional, acadêmica ou por eventuais posições pessoais. Da mesma forma, também seria inadequado exigir que um jornalista não tenha opinião.
O que o eleitor tem direito de exigir é que a opinião pessoal não determine a pergunta, a réplica ou o tratamento dispensado ao entrevistado.
E isso vale para todos os lados.
Se um candidato é de esquerda, deve ser questionado sobre suas propostas econômicas, segurança, saúde e administração pública.
Se é de direita, também. Se representa a continuidade do governo, precisa explicar o que pretende manter e o que pretende mudar.
Se representa a oposição, precisa explicar como fará diferente, quanto custará e de onde virão os recursos.
A régua precisa ser a mesma.
A sabatina não pode virar tribunal ideológico
Esse é um risco que precisa ser evitado.
Uma boa sabatina não é aquela em que o jornalista consegue "pegar" o candidato.
É aquela em que o eleitor consegue entender o candidato.
Perguntas duras são necessárias. Confrontar informações também. Cobrar números, resultados, promessas e contradições faz parte do jornalismo.
Mas existe uma diferença entre jornalismo incisivo e jornalismo militante.
A pergunta deve nascer do interesse público, e não da preferência política de quem pergunta.
Isso será especialmente importante nesta eleição porque o Paraná apresenta candidaturas com visões políticas bastante diferentes.
O eleitor precisa ter condições de comparar propostas, e não simplesmente assistir a jornalistas e candidatos reproduzindo suas próprias convicções.
A partir de agora, ninguém poderá se esconder
E talvez esta seja a melhor notícia para o eleitor. A campanha formal começou; o horário eleitoral vem aí; os debates continuarão; as sabatinas começaram; as entrevistas serão multiplicadas; as redes sociais serão inundadas de propostas, críticas, vídeos e contrapontos.
E os candidatos terão cada vez menos espaço para permanecer apenas no ambiente confortável de seus próprios apoiadores.
Isso será particularmente importante para os nomes que ainda precisam ampliar o reconhecimento junto ao eleitorado.
Nas redes sociais, um candidato pode escolher o cenário, editar a fala, cortar a pergunta e publicar apenas aquilo que deseja. No debate e na sabatina, a situação é diferente:
Há perguntas, há repreguntas, há adversários, há jornalistas, há tempo limitado e, sobretudo, há o eleitor observando.
O teste será de comunicação, mas também de conteúdo
O horário eleitoral será cuidadosamente produzido por especialistas. Os debates serão preparados pelas emissoras. As campanhas terão equipes profissionais de comunicação.
Mas existe algo que nenhum marqueteiro consegue esconder indefinidamente: o conteúdo.
Pode-se melhorar a imagem de um candidato, organizar sua narrativa, escolher a melhor música e produzir um excelente vídeo, mas, quando começam as perguntas sobre orçamento, saúde, educação, segurança, infraestrutura, desenvolvimento econômico, emprego, impostos e gestão pública, chega a hora de saber se existe realmente um projeto.
É nesse momento que a eleição deixa de ser apenas uma disputa de imagens e passa a ser uma disputa de ideias.
A campanha entrou em outra fase
O Paraná passou meses assistindo à formação do tabuleiro eleitoral.
Agora começa a parte mais interessante. Os candidatos terão de conversar diretamente com o eleitor e explicar por que querem governar o Estado.
A televisão apresentará versões cuidadosamente produzidas de cada candidatura. As redes sociais tentarão mobilizar os eleitores. Os debates colocarão os candidatos frente a frente. As sabatinas permitirão perguntas mais aprofundadas. E a imprensa terá uma responsabilidade enorme nesse processo.
O eleitor não precisa de jornalistas que pensem como ele.
Precisa de jornalistas que perguntem aquilo que ele gostaria de perguntar.
Essa talvez seja a melhor definição para o jornalismo eleitoral neste momento.
Porque, depois de meses de articulações, alianças, pesquisas e pré-campanha, a eleição finalmente entra na fase em que cada candidato terá de explicar, responder e sustentar aquilo que está pedindo ao eleitor: o voto.
E agora, mais do que nunca, será difícil esconder-se atrás do discurso pronto.
