NARRATIVA.política, poder e versão

A pré-campanha das paixões e a falta de reflexão

Durante grande parte de sua carreira, Moro atuou como juiz federal. A função do juiz, em um Estado Democrático de Direito, não é realizar operações policiais...

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Redação28/07/2026
A pré-campanha das paixões e a falta de reflexão

As redes sociais transformaram a pré-campanha eleitoral em um espetáculo permanente. Antes mesmo do início oficial da campanha, vídeos, cortes de entrevistas, memes e análises improvisadas já disputam a atenção dos eleitores. O problema não está na participação política — ela é saudável e necessária. O problema surge quando o debate é substituído pela torcida organizada.

Nos últimos dias, proliferaram vídeos de influenciadores improvisados e militantes apaixonados que parecem mais interessados em acumular curtidas do que em contribuir para uma discussão séria sobre o futuro do Paraná.

Em um desses vídeos, um cidadão que demonstra dificuldades até mesmo com as regras básicas da língua portuguesa desafia o governador Ratinho Junior para um debate com Requião Filho, como se desconhecesse que Ratinho Junior não é candidato ao Governo do Estado. A cena é curiosa, mas revela um fenômeno maior: muita gente resolveu opinar sobre política sem conhecer o mínimo do processo eleitoral ou dos personagens envolvidos.

O mesmo ocorre com a leitura das pesquisas eleitorais.

A cada levantamento divulgado, surgem "pretensos especialistas" que enxergam apenas um número: a intenção de voto. Ignoram completamente indicadores que, muitas vezes, dizem muito mais sobre as possibilidades reais de cada candidatura. Rejeição, potencial de crescimento, conhecimento do eleitor sobre determinado candidato, avaliação dos governos e percentual de indecisos costumam ser tratados como detalhes secundários, quando, na verdade, são elementos centrais para compreender uma disputa eleitoral.

Uma candidatura pode aparecer na liderança hoje e encontrar enormes dificuldades para crescer justamente porque já atingiu seu teto eleitoral. Outra pode começar atrás, mas reunir condições para avançar ao longo da campanha em razão da baixa rejeição e do elevado desconhecimento por parte do eleitor. É exatamente por isso que pesquisas não são fotografias definitivas do resultado da eleição; são retratos de um momento, que precisam ser interpretados com método e contexto.

Outro aspecto recorrente dessa pré-campanha é a tentativa de transformar determinadas figuras públicas em símbolos absolutos de temas complexos.

É o caso do senador Sergio Moro e da segurança pública.

Existe uma narrativa, difundida por seus apoiadores, que o apresenta como o grande responsável pelo combate ao crime organizado. A realidade institucional, porém, é mais complexa.

Durante grande parte de sua carreira, Moro atuou como juiz federal. A função do juiz, em um Estado Democrático de Direito, não é realizar operações policiais, comandar investigações ou patrulhar as ruas. Cabe ao magistrado analisar pedidos formulados pelas autoridades competentes, autorizar ou negar medidas cautelares, como buscas e prisões, garantir o devido processo legal e, ao final, julgar os casos submetidos à sua apreciação. O enfrentamento direto ao crime é realizado por policiais, investigadores, delegados, peritos, promotores e demais agentes do sistema de segurança e justiça criminal, cada qual dentro de suas atribuições.

Posteriormente, Moro assumiu o Ministério da Justiça, mas permaneceu pouco tempo no cargo. Sua passagem ocorreu em um período marcado por intensos conflitos internos no governo federal. A saída do ministério foi acompanhada de críticas públicas ao então presidente Jair Bolsonaro e de divergências que tiveram ampla repercussão nacional, envolvendo também pessoas próximas ao presidente. Independentemente da avaliação que cada eleitor faça desse episódio, trata-se de um período que continua influenciando a percepção de diferentes segmentos do eleitorado.

Isso não significa negar os méritos ou deméritos de qualquer pré-candidato. Significa apenas reconhecer que segurança pública não depende de um único personagem. Ela envolve inteligência policial, investimentos, integração entre forças de segurança, políticas sociais, sistema prisional eficiente, combate ao crime organizado, prevenção, tecnologia e decisões do Poder Judiciário. Reduzir um tema dessa complexidade a um único nome é simplificar excessivamente um problema que exige soluções institucionais.

O ambiente político brasileiro, e o paranaense não foge à regra, vive uma polarização intensa. Há eleitores que enxergam virtudes apenas em quem confirma suas convicções e defeitos apenas nos adversários. Em muitos casos, a paixão política acaba substituindo a análise racional dos fatos.

Essa lógica interessa aos grupos políticos mais organizados. Quanto menos o eleitor questiona, compara e verifica informações, maior é a força das narrativas prontas, dos vídeos de poucos segundos e dos discursos emocionais.

Democracia, porém, exige algo mais trabalhoso: reflexão.

É preciso olhar além das manchetes, desconfiar das interpretações apressadas, compreender o significado dos números das pesquisas e avaliar a trajetória, as propostas e a capacidade administrativa de cada candidato. Nenhum vídeo viral substitui a leitura crítica. Nenhuma pesquisa, isoladamente, define uma eleição. Nenhum político, sozinho, resolve problemas estruturais.

A campanha eleitoral está apenas começando. Até a votação, os paranaenses assistirão a uma avalanche de vídeos, cortes, acusações, slogans e promessas. Caberá ao eleitor decidir se participará desse processo como integrante de uma torcida ou como cidadão disposto a pensar antes de votar.

Porque, no fim das contas, governos passam, campanhas terminam, mas as consequências do voto permanecem por quatro anos.