NARRATIVA.política, poder e versão

A segurança pública e o discurso fácil e eleitoreiro como se este fosse o único problema do país

O cidadão que sai de casa com medo de ser assaltado naturalmente se sensibiliza com discursos de enfrentamento ao crime

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Redação02/06/2026
A segurança pública e o discurso fácil e eleitoreiro como se este fosse o único problema do país

Foto: Sesp/PR

A política brasileira vive uma distorção perigosa: a transformação da segurança pública em uma espécie de solução mágica para todos os problemas nacionais.

Parte significativa da direita brasileira adotou um discurso simplista, emocional e eleitoralmente conveniente, baseado na ideia de que o endurecimento penal, o aumento da repressão e o fortalecimento ostensivo das forças policiais seriam suficientes para resolver os desafios estruturais do país.

O discurso do medo. É um discurso fácil. Funciona eleitoralmente porque explora o medo da população diante da violência, da criminalidade e da sensação de insegurança que atinge milhões de brasileiros. Afinal, poucas pautas possuem impacto emocional tão imediato quanto a segurança pública. O cidadão que sai de casa com medo de ser assaltado naturalmente se sensibiliza com discursos de enfrentamento ao crime.

E é justamente aí que muitos setores políticos constroem uma narrativa de forte apelo popular, mas de baixa profundidade administrativa.

Governar vai além da segurança pública.

O problema é que governar um país não se resume a repetir palavras de ordem sobre criminalidade. O Brasil não enfrenta apenas uma crise de segurança. O país possui gargalos históricos em educação, saúde, infraestrutura, mobilidade, geração de empregos, desenvolvimento econômico, inovação, habitação e gestão pública. Reduzir o debate nacional quase exclusivamente à segurança pública é uma forma conveniente de simplificar problemas complexos e criar uma agenda política baseada muito mais no impacto eleitoral do que em soluções reais.

No Paraná, esse modelo de discurso também ganhou espaço. Setores da direita local, especialmente ligados ao senador Sergio Moro e seus correligionários, transformaram a pauta da segurança em uma espécie de bandeira permanente.

Na Assembleia Legislativa e em diversos discursos políticos, o tema aparece quase como um mantra eleitoral

Mais endurecimento, mais repressão, mais polícia. É uma narrativa de forte apelo popular, mas que frequentemente ignora a complexidade de administrar um Estado inteiro.

O próprio histórico recente do Paraná demonstra que a realidade administrativa é muito mais ampla do que o discurso político simplificado. O governo Ratinho Junior realizou investimentos robustos na área de segurança pública, com renovação de viaturas, modernização tecnológica, aquisição de equipamentos e fortalecimento das forças policiais.

Ou seja: o Estado não abandonou a segurança pública e reconheceu sua importância estratégica.

O discurso eleitoreiro. Mas há uma diferença fundamental entre governar e fazer discurso eleitoral. Enquanto alguns grupos políticos tentam vender a ideia de que segurança pública é praticamente a única prioridade nacional, o governo estadual compreendeu que administrar exige equilíbrio entre várias áreas essenciais.

Ao mesmo tempo em que investiu nas polícias, o Paraná também avançou em infraestrutura, atração de investimentos, logística, desenvolvimento regional, educação técnica e responsabilidade fiscal. Esse é o ponto central que desmonta o discurso fácil e eleitoreiro: segurança pública é importante, mas não sustenta sozinha o desenvolvimento de um Estado ou de um país.

Nenhuma sociedade se desenvolve apenas com viaturas novas, operações policiais e discursos de enfrentamento. Segurança sem emprego, sem crescimento econômico, sem educação e sem oportunidade social apenas combate os efeitos da crise — nunca suas causas profundas.

Fazer política sem levar o terror para o cidadão.

Existe ainda um componente político evidente nessa estratégia discursiva.

A pauta da segurança produz dividendos eleitorais rápidos porque trabalha diretamente com emoções fortes como medo, revolta e indignação

Já políticas estruturais — educação, planejamento urbano, desenvolvimento econômico — exigem tempo, gestão técnica e resultados graduais. É muito mais simples politicamente fazer discursos duros contra o crime do que apresentar soluções consistentes para os desafios estruturais do país.

O risco dessa lógica é transformar a política em um ambiente de slogans permanentes. O cidadão passa a ouvir diariamente que “o problema do Brasil é falta de repressão”, enquanto temas igualmente decisivos permanecem em segundo plano. E isso interessa eleitoralmente a determinados grupos, porque simplificar a realidade facilita a construção de narrativas políticas de impacto imediato.

Pensar e agir pela segurança pública sim, mas sem demagogia.

O Paraná recente mostra justamente o contrário: é possível investir fortemente em segurança pública sem abandonar outras áreas fundamentais. E talvez esteja aí uma das principais diferenças entre quem governa de fato e quem apenas explora eleitoralmente o medo da população.

A segurança pública é indispensável. Mas o Brasil não será resolvido apenas com discursos de endurecimento penal, operações policiais ou retórica de combate permanente.

E aí?

Um país complexo exige governos capazes de enxergar a sociedade além do medo e além da política de efeito imediato. O verdadeiro desafio da gestão pública é construir equilíbrio entre ordem, desenvolvimento, oportunidade e inclusão — e não transformar a segurança pública em um palanque eleitoral permanente.