NARRATIVA.política, poder e versão

Álvaro Dias está fora: Ratinho Junior joga xadrez enquanto os adversários ainda movem peões

Quem observou apenas os anúncios públicos viu uma sucessão de fatos: Rafael Greca desistiu da candidatura ao Governo para ser vice...

R
Redação03/08/2026
Álvaro Dias está fora: Ratinho Junior joga xadrez enquanto os adversários ainda movem peões

Foto: Divulgação Senado

A confirmação de que Álvaro Dias não disputará uma vaga ao Senado encerra uma das maiores incógnitas da política paranaense nesta reta final das convenções. Mais do que a decisão pessoal de um dos políticos mais influentes da história recente do Estado, o movimento reorganiza completamente o tabuleiro da sucessão estadual e fortalece uma estratégia que vinha sendo construída há meses pelo governador Ratinho Junior.

Desde o início das articulações, Ratinho Junior demonstrou que sua prioridade não era apenas escolher um candidato ao Governo. Seu objetivo era bem mais amplo: preservar a unidade da base governista e construir uma chapa capaz de chegar competitiva às urnas.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Primeiro, convenceu Rafael Greca a abrir mão da candidatura própria ao Palácio Iguaçu para compor como vice de Sandro Alex. Com isso, retirou da disputa um candidato que aparecia bem posicionado nas pesquisas e incorporou ao projeto governista uma liderança com forte influência em Curitiba e na Região Metropolitana.

Depois, administrou com cautela a disputa pelas vagas ao Senado.

Enquanto a opinião pública enxergava indefinição, os bastidores mostravam um processo de negociação delicado. Ratinho Junior evitou precipitações, manteve diálogo com os partidos aliados e trabalhou até o limite do calendário eleitoral para acomodar interesses que, em muitos momentos, pareciam incompatíveis.

É nesse contexto que a decisão de Álvaro Dias ganha relevância.

Durante semanas, seu nome era apontado como um dos mais competitivos para o Senado. Sua permanência na disputa representava um desafio para qualquer composição da base governista. Ao retirar seu nome da corrida, elimina um dos principais fatores de incerteza da eleição e permite que a engenharia política construída pelo Palácio Iguaçu avance para uma nova etapa.

Quem sai diretamente beneficiado é o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi.

Embora Ratinho Junior já tivesse reiterado publicamente seu apoio à pré-candidatura de Curi ao Senado, a possível participação de Álvaro Dias mantinha o cenário em aberto e alimentava especulações sobre a composição definitiva da chapa. Com a desistência de Álvaro, Alexandre Curi passa a ter um caminho politicamente mais desobstruído para consolidar sua candidatura, fortalecendo um projeto que o governador vem defendendo desde o início das articulações.

Não significa que a eleição esteja decidida.

A disputa pelo Senado continuará sendo uma das mais concorridas do país e dependerá das definições partidárias, do comportamento do eleitorado e do desempenho dos candidatos durante a campanha. Mas, do ponto de vista da articulação política, o cenário tornou-se muito mais favorável para Curi do que era há poucos dias.

Esse talvez seja o maior mérito de Ratinho Junior.

Enquanto adversários ainda buscavam definir candidaturas e administrar conflitos internos, o governador concentrou esforços na construção de uma ampla coalizão. Em poucos dias, conseguiu reunir Sandro Alex e Rafael Greca na mesma chapa, manteve a base praticamente unificada e viu desaparecer um dos maiores obstáculos à consolidação da candidatura de Alexandre Curi ao Senado.

Na política, vitórias eleitorais não são conquistadas apenas nas urnas. Elas começam muito antes, na capacidade de construir alianças, administrar interesses divergentes e convencer lideranças a colocar um projeto coletivo acima de projetos individuais.

É justamente isso que Ratinho Junior parece ter feito.

As próximas pesquisas mostrarão se essa engenharia política produzirá dividendos eleitorais. Mas, independentemente dos números que virão, uma conclusão já se impõe: o governador demonstrou habilidade para conduzir uma negociação complexa, reduzir tensões dentro de sua base e reorganizar o cenário eleitoral paranaense sem grandes rupturas públicas.

Em um ambiente político marcado por vaidades e disputas de espaço, essa talvez tenha sido sua maior vitória até agora. Afinal, enquanto muitos enxergavam apenas candidaturas, Ratinho Junior parecia jogar uma partida maior: a de montar um tabuleiro no qual seus principais aliados permanecessem no mesmo lado.

Com a saída de Álvaro Dias da disputa, Alexandre Curi passa a ter, mais do que nunca, o caminho aberto para transformar essa estratégia em uma candidatura competitiva ao Senado.

Leia na íntegra a carta de Álvaro Dias

Meus amigos e minhas amigas,

Ao longo da minha travessia na vida pública, aprendi que as maiores vitórias não são os cargos que ocupamos, mas a confiança que conquistamos das pessoas.
Nos últimos meses, acompanhei com humildade as manifestações de apoio reveladas por pesquisas de opinião mostrando meu nome em primeiro lugar, com significativa vantagem sob os demais candidatos, e isso muito me honra.

Não interpreto esses números como um prêmio pessoal, mas sim como o reconhecimento de uma história construída com trabalho, dedicação e compromisso com a nossa gente. Confesso que esse apoio despertou em mim uma profunda reflexão. Afinal, quem dedicou uma vida toda ao serviço público nunca deixa de sentir o chamado para continuar contribuindo.

Por isso respondi ao chamado. Mas também aprendi que nenhuma candidatura se sustenta apenas na vontade de um homem ou da opinião pública. Na política atual, prevalecem os arranjos, as composições e a vontade dos políticos.

Infelizmente, compreendi que hoje não existem, dentro do grupo político liderado pelo governador, as condições necessárias para construir essa unidade que eu tanto almejei, também em torno do meu nome.
E eu jamais aceitarei ser motivo de divisão, ainda mais nessa altura da minha história. Nunca coloquei um projeto pessoal acima de um projeto coletivo. Não fiz isso no passado e por isso também não o farei agora.

Portanto, essa é uma decisão que talvez decepcione alguns amigos, mas que considero a mais correta diante das circunstâncias: não serei candidato.

Faço essa escolha com serenidade, sem qualquer sentimento de mágoa, ressentimento ou revolta. A política é feita de ciclos, e a grandeza de quem a exerce está justamente em saber reconhecer o momento de avançar e o momento de recuar. Saio desta decisão com a consciência tranquila. Minha história foi escrita ao lado da população, nas urnas, nas ruas e nas realizações que tivemos a oportunidade de construir juntos.

Continuarei acompanhando os destinos da nossa gente, do nosso Estado e do nosso país. Continuarei oferecendo minha experiência sempre que ela puder ser útil, sempre que requisitada, opinando quando for chamado, apoiando boas ideias e defendendo aquilo em que sempre acreditei.

Quero agradecer, de coração, a cada cidadão que manifestou confiança no meu nome. Esse gesto ficará para sempre guardado na minha memória e na minha história. Na política somos passageiros. Os mandatos passam.

Mas os valores permanecem e eu não estou disposto a negociar os meus.

Por isso escolho ficar mais próximo das pessoas que me querem perto, da minha família, amigos e apoiadores de sempre.

Muito obrigado a todos. Que Deus abençoe cada família e continue iluminando os caminhos da nossa gente.