CEO da AZ Quest defende que eventual governo Flávio Bolsonaro priorize cortes em aposentadorias e no funcionalismo. Para quem já recebe pouco, a receita do mercado financeiro tem um nome: arrocho.
Existe uma velha fórmula para equilibrar as contas públicas no Brasil: quando chega a hora de escolher quem deve fazer sacrifícios, os olhos de parte do mercado financeiro se voltam para quem tem menos condições de suportá-los. Aposentados, pensionistas e servidores públicos voltam ao centro da mira. Os privilégios, as renúncias fiscais e as despesas que poderiam ser revistas com coragem política ficam, convenientemente, para depois.
É essa lógica que reaparece na discussão sobre um eventual governo de Flávio Bolsonaro.
Em reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, Walter Maciel, CEO da gestora AZ Quest e eleitor declarado do senador, defende que o futuro governo priorize cortes nos gastos com aposentados, servidores públicos e Judiciário. Na sua avaliação, medidas envolvendo emendas parlamentares e renúncias fiscais poderiam ser adiadas, enquanto mudanças na Previdência ajudariam a produzir uma economia bilionária.
A pergunta que precisa ser feita é simples: por que o ajuste fiscal deve começar justamente por quem passou a vida trabalhando e agora depende de uma aposentadoria para sobreviver?
Aposentadoria não é privilégio. É direito.
Para o executivo que discute bilhões em planilhas, restringir reajustes pode parecer uma operação técnica, dessas que se resolvem com uma fórmula e uma apresentação para investidores. Para o aposentado que recebe um salário mínimo, porém, a matemática tem outra dimensão: é o dinheiro do supermercado, da farmácia, da conta de luz e do aluguel.
O benefício previdenciário não é um presente do governo. É resultado de uma vida de trabalho e contribuição. Tratar aposentadorias como uma despesa incômoda, que precisa ser comprimida para tranquilizar o mercado financeiro, é ignorar a função social da Previdência.
Quando os preços sobem, o aposentado não tem como compensar a perda de renda fazendo horas extras. Não pode voltar ao mercado de trabalho por decreto. E, quando a saúde exige medicamentos e cuidados permanentes, cada real perdido pesa ainda mais.
Por isso, limitar os reajustes à inflação, impedindo a recuperação real do poder de compra, não é uma medida neutra para quem vive com o benefício mínimo. Significa condenar milhões de pessoas a permanecer na mesma corrida desigual: os preços avançam, as necessidades aumentam e a renda fica para trás.
O que aparece como economia para o governo pode significar privação dentro da casa de um aposentado.
Para o Judiciário, a tesoura precisa ter endereço certo
Há, sim, despesas no Judiciário que precisam ser enfrentadas. Supersalários, penduricalhos remuneratórios e benefícios que ultrapassam os limites razoáveis do serviço público merecem uma revisão rigorosa. É preciso discutir transparência, privilégios e o uso do dinheiro público, sem transformar a independência judicial ou o funcionamento da Justiça em alvo indiscriminado.
O problema é a diferença entre enfrentar privilégios e retirar direitos de quem depende de uma renda modesta.
Se existe disposição para fazer um ajuste fiscal de verdade, por que não começar pelo combate aos supersalários, pela revisão de benefícios injustificáveis, pela avaliação das renúncias tributárias e pelo controle de despesas sem retorno social comprovado?
Por que a urgência fiscal parece perder força quando chega a hora de enfrentar interesses políticos e econômicos organizados?
É legítimo cobrar eficiência do Estado. O que não é legítimo é vender a ideia de que a solução passa necessariamente por apertar o orçamento de quem tem pouca margem para cortar.
O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, mas responsabilidade fiscal não pode ser um eufemismo para irresponsabilidade social.
O mercado quer confiança. O aposentado precisa de dignidade.
O argumento de que um ajuste duro poderia melhorar a confiança dos investidores e estimular o crescimento econômico merece debate. Contas públicas sustentáveis são importantes para o País. Mas não existe justificativa para tratar a proteção social como obstáculo a ser removido antes de examinar todas as alternativas.
Afinal, confiança para quem?
Para o investidor que espera uma trajetória mais favorável da dívida pública? Para o gestor que busca previsibilidade nos indicadores econômicos? Ou para o cidadão que precisa ter certeza de que conseguirá pagar suas despesas básicas no fim do mês?
Não são objetivos necessariamente incompatíveis. O problema está em escolher quem deve arcar com o custo da reorganização fiscal.
Uma política econômica responsável precisa considerar não apenas quanto o Estado economiza, mas também quem perde renda, quem deixa de consumir, quem adia um tratamento médico e quem passa a depender ainda mais de familiares para sobreviver.
O dinheiro que deixa de chegar ao bolso de um aposentado não desaparece em uma abstração contábil. Ele faz falta na economia real, no comércio do bairro e no orçamento doméstico.
E o compromisso político com os aposentados?
A discussão também impõe uma questão ao próprio Flávio Bolsonaro. A defesa de cortes previdenciários feita por um empresário que apoia sua candidatura não deve ser confundida automaticamente com uma decisão oficial de campanha. O candidato, segundo declarações reproduzidas pela imprensa, já afirmou que não pretende fazer o ajuste fiscal às custas dos aposentados.
Mas, se existe uma corrente de apoio defendendo justamente o contrário, é legítimo cobrar clareza.
O eleitor tem o direito de saber se um eventual governo preservará o poder de compra das aposentadorias ou se pretende alterar as regras para produzir uma economia fiscal de grandes proporções. Não basta prometer rigor nas contas públicas e deixar para depois da eleição a discussão sobre quem será atingido.
O mercado financeiro pode defender suas preferências. Faz parte do debate econômico. O que não pode é transformar uma proposta de arrocho previdenciário em solução incontestável, como se os milhões de brasileiros que dependem do INSS fossem apenas uma linha inconveniente no orçamento federal.
A conta não pode cair sempre sobre os mesmos
O Brasil não precisa escolher entre responsabilidade fiscal e respeito aos aposentados. Precisa escolher entre um ajuste que distribua os esforços com critérios justos e outro que proteja interesses poderosos enquanto exige sacrifícios de quem tem menos recursos para reagir.
Se há desperdícios, que sejam eliminados. Se existem privilégios, que sejam revistos. Se há supersalários, que sejam enfrentados. Se as renúncias fiscais não se justificam, que sejam avaliadas. Se o dinheiro público é mal utilizado, que se corrija o problema.
Mas começar pelos aposentados de baixa renda é inverter a lógica da justiça social. É cobrar de quem já pagou sua contribuição durante décadas e agora deveria ter o direito de viver com um mínimo de segurança.
- Aposentado não é variável de ajuste. É cidadão, trabalhador de uma vida inteira e titular de um direito.
Cortar privilégios é uma obrigação. Corrigir distorções no Judiciário é necessário. Organizar as contas públicas é indispensável. Sacrificar a dignidade de quem sobrevive com uma aposentadoria modesta, porém, não é coragem econômica. É escolher o caminho politicamente mais cômodo para quem tem poder e socialmente mais cruel para quem tem pouco.
A responsabilidade fiscal deve servir ao País — não transformar a velhice em mais uma conta a ser paga pelos mais vulneráveis.
