A polêmica envolvendo a retirada de árvores na Avenida Arthur Bernardes expôs um dos temas mais delicados da gestão urbana moderna: como conciliar preservação ambiental com necessidade de mobilidade e infraestrutura.
Os protestos são compreensíveis. A Arthur Bernardes possui forte identidade afetiva para Curitiba: é um corredor verde, tem área de convivência, há memória urbana e símbolo do imaginário da “capital ecológica”. Mas a discussão também revela outro ponto importante: administrar uma cidade complexa exige, muitas vezes, tomar decisões impopulares.
Eduardo Pimentel escolheu não recuar. Esse é o principal dado político do episódio. Mesmo diante de protestos, pressão de movimentos organizados, repercussão negativa nas redes e desgaste ambiental evidente, a Prefeitura decidiu manter o projeto do Novo Inter 2.
E isso revela uma característica importante da atual gestão: disposição de enfrentar desgaste político em nome de um projeto considerado estrutural para a cidade.
A obra não é isolada. Faz parte de um redesenho urbano. O debate muitas vezes ficou concentrado apenas na derrubada das árvores, mas a Prefeitura sustenta que o projeto integra o Novo Inter 2: modernização do transporte coletivo, corredores sustentáveis, ônibus elétricos, drenagem, reorganização viária e requalificação urbana. Ou seja, o governo municipal tenta apresentar a intervenção como parte de uma transformação mais ampla da mobilidade de Curitiba.
O impacto ambiental existe — mas a Prefeitura também construiu defesa técnica. Esse é um ponto central. A Justiça chegou a suspender parcialmente as obras, mas o Tribunal de Justiça posteriormente derrubou a liminar e validou a continuidade do projeto.
Na decisão, pesou a existência de estudos ambientais, justificativas técnicas e avaliação do impacto socioeconômico da obra. Além disso, após pressão social, o projeto sofreu alterações para reduzir significativamente o número inicial de árvores previstas para corte: de mais de 300 para cerca de 103.
Isso demonstra que houve resistência da Prefeitura em abandonar o projeto mas também adaptação diante da pressão pública.
A crítica ambiental revela força da sociedade curitibana. Os protestos também mostram algo positivo sobre Curitiba: a cidade ainda possui forte consciência ambiental coletiva. Movimentos como o SOS Arthur Bernardes conseguiram: mobilizar moradores, gerar debate público, pressionar tecnicamente e influenciar mudanças no projeto.
Isso é saudável para a democracia urbana. Eduardo Pimentel reafirma a imagem de gestor pragmático.
Politicamente, o episódio ajuda a desenhar o perfil do prefeito. Pimentel parece optar por uma postura de gestor executivo, técnico, pragmático e menos movido por decisões emocionais.
Mesmo sabendo do desgaste potencial, manteve uma obra considerada estratégica para o transporte, a integração urbana e expansão da infraestrutura da cidade. A gestão também tenta neutralizar a narrativa de “antiambiental”.
Esse talvez seja o ponto mais importante para o prefeito. Curitiba possui identidade ambiental muito forte e, por isso, Eduardo Pimentel tenta reforçar continuamente os programas de plantio, compensação ambiental, arborização urbana e recuperação verde.
A Prefeitura destaca, por exemplo, programas que já ultrapassaram centenas de milhares de novas mudas plantadas na cidade.
A mensagem política é clara: o governo sustenta que não existe abandono da pauta ambiental, mas sim substituição de modelo urbano em áreas específicas.
E aí? A crise da Arthur Bernardes talvez revele algo maior sobre Curitiba: a cidade começa a enfrentar o conflito entre preservação afetiva e necessidade de modernização urbana. E Eduardo Pimentel decidiu assumir o custo político dessa escolha.
Fato. Governar Curitiba significa administrar uma cidade que ama suas árvores — e reage quando elas desaparecem. Mas também significa decidir.
Eduardo Pimentel escolheu sustentar uma obra que considera estratégica para a mobilidade e para o futuro urbano da capital.
E, na política, há momentos em que o governante deixa de escolher entre aplauso e crítica e passa a escolher entre recuar ou assumir o desgaste.
