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Curitiba nas ruas: a política separa, as alianças mudam — mas a convivência precisa prevalecer

Se as lideranças conseguem rever posições, construir acordos e dividir espaços, por que o cidadão comum deveria romper amizades...

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Redação19/10/2026
Curitiba nas ruas: a política separa, as alianças mudam — mas a convivência precisa prevalecer

o primeiro turno da disputa pelo Governo do Paraná, Sergio Moro enfrentou Sandro Alex, candidato apoiado pelo governador Ratinho Junior. A campanha foi marcada por críticas, questionamentos e ataques políticos entre os grupos. Ratinho chegou a fazer críticas públicas a Moro, apontando incoerências em sua trajetória e defendendo a candidatura de Sandro Alex.

O resultado das urnas, porém, mudou o tabuleiro.

Agora, Moro, Ratinho Junior e o campo político de Sandro Alex encontram-se alinhados em torno do apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro. Ratinho Junior já declarou apoio ao senador do PL, enquanto Moro se tornou uma das principais lideranças bolsonaristas no Paraná após conquistar o governo estadual.

A fotografia política é reveladora: aqueles que disputaram o poder estadual em lados opostos podem compartilhar o mesmo palanque quando a disputa passa para outra esfera.

  • Isso não é necessariamente uma contradição. A política é feita de negociações, interesses, convergências e rearranjos. Adversários em uma eleição podem encontrar pontos em comum em outra. O problema começa quando os próprios atores políticos estimulam a ideia de que seus opositores são inimigos irreconciliáveis e, depois, tratam alianças e divergências conforme a conveniência do momento.

Se as lideranças conseguem rever posições, construir acordos e dividir espaços, por que o cidadão comum deveria romper amizades, hostilizar parentes ou tratar o vizinho como adversário pessoal por causa do voto?

A pergunta merece ser feita, especialmente em um momento no qual a polarização se alimenta de desconfiança, provocações e ataques nas redes sociais.

O voto não pode valer mais do que as pessoas

Lulistas e bolsonaristas têm o direito de defender suas convicções, participar de manifestações, criticar candidatos e tentar convencer outros eleitores. A democracia depende justamente da liberdade de manifestação e da possibilidade de confronto entre ideias diferentes.

Mas existe uma fronteira que não deveria ser ultrapassada: a transformação da divergência política em justificativa para humilhar, ameaçar ou desumanizar quem pensa diferente.

O eleitor que vota em Lula não é automaticamente inimigo de quem prefere Flávio Bolsonaro. Da mesma forma, o eleitor bolsonarista não perde sua dignidade por defender um projeto político rejeitado por seus adversários.

É possível discordar profundamente de alguém e continuar respeitando sua história, seu trabalho, sua família e sua liberdade de escolha.

Afinal, quantas amizades valem menos do que uma disputa eleitoral? Quantas famílias precisam passar por constrangimentos em almoços de domingo porque alguém decidiu que o voto do outro é motivo suficiente para uma briga? Quantos colegas de trabalho precisam transformar a convivência diária em um campo de batalha ideológico?

Nenhuma eleição deveria exigir esse preço.

A política passa. A convivência fica.

Os candidatos fazem campanha, disputam votos, negociam apoios e tentam conquistar o poder. Depois da eleição, as alianças podem mudar novamente, os antigos adversários podem se aproximar e os discursos mais duros podem dar lugar à negociação.

A história política está cheia desses movimentos. O que hoje parece uma aliança improvável amanhã pode se tornar uma composição perfeitamente aceitável para os mesmos dirigentes que, até pouco tempo antes, trocavam críticas públicas.

O eleitor precisa compreender essa dinâmica sem abrir mão de suas convicções. Cobrar coerência dos políticos é legítimo. Questionar alianças, apontar contradições e exigir explicações também é parte do exercício democrático.

Mas é preciso aplicar a mesma lucidez às relações pessoais. Não faz sentido exigir que um adversário político seja capaz de negociar com antigos rivais e, ao mesmo tempo, considerar imperdoável que um amigo ou familiar vote em outro candidato.

A política deve ser discutida, fiscalizada e contestada. Não precisa ser transformada em religião, tampouco em motivo para romper laços que foram construídos ao longo de anos.

Curitiba viu, neste fim de semana, dois campos políticos demonstrarem sua capacidade de mobilização. O eleitorado está dividido, e essa divisão merece ser compreendida, não agravada artificialmente.

No fim, o resultado das urnas definirá quem ocupará a Presidência da República. Mas nenhum resultado eleitoral deveria determinar quem merece continuar recebendo um cumprimento, um convite para um café ou um abraço de alguém que pensa diferente.

  • A eleição termina. Os mandatos passam. As alianças mudam. As amizades, os vínculos familiares e o respeito entre as pessoas merecem durar muito mais do que uma campanha.

Porque, numa democracia, o adversário político não precisa ser um inimigo pessoal. E preservar essa diferença talvez seja uma das escolhas mais importantes que o eleitor pode fazer.