A mais recente pesquisa Datafolha traz um alerta importante para a pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Mais do que a disputa direta com os adversários, o levantamento revela uma dificuldade persistente em um segmento historicamente decisivo nas eleições brasileiras: o eleitorado feminino.
Segundo a pesquisa, 50% das mulheres afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro de jeito nenhum, tornando-o o pré-candidato com maior rejeição entre esse público. O dado praticamente não se alterou em relação aos levantamentos anteriores, indicando que não se trata de uma oscilação momentânea, mas de uma resistência consolidada.
Esse resultado ganha ainda mais relevância diante dos acontecimentos recentes envolvendo Michelle Bolsonaro.
Nos últimos meses, o bolsonarismo assistiu a um raro conflito público dentro de seu principal núcleo político. O desentendimento entre Flávio e Michelle rompeu, ainda que temporariamente, a imagem de unidade construída ao longo dos últimos anos e colocou em evidência divergências familiares e políticas. Posteriormente, houve gestos públicos de aproximação, mas o episódio deixou marcas no debate político.
Michelle Bolsonaro consolidou-se como uma das principais lideranças da direita junto ao eleitorado feminino e evangélico. Sua imagem costuma dialogar com um público que, tradicionalmente, apresenta maior resistência ao discurso mais confrontador da família Bolsonaro. Por isso, qualquer desgaste envolvendo sua figura possui potencial para repercutir justamente no segmento em que Flávio encontra maiores dificuldades.
É importante observar que a pesquisa não permite concluir que o conflito com Michelle tenha sido a causa direta da rejeição feminina. O próprio Datafolha mostra que esses índices permaneceram estáveis ao longo das últimas medições. O episódio, entretanto, pode ter dificultado uma eventual tentativa de reduzir essa resistência, especialmente porque ocorreu em um momento em que a campanha buscava ampliar sua base para além do eleitorado mais fiel.
Toda candidatura competitiva à Presidência precisa ultrapassar seu núcleo de apoiadores. Flávio Bolsonaro herda uma parcela significativa do eleitorado identificado com o legado político de seu pai, mas vencer uma eleição nacional exige dialogar também com os indecisos, os moderados e, principalmente, com grupos em que sua aceitação é menor.
As mulheres representam mais da metade do eleitorado brasileiro e costumam exercer papel decisivo em disputas equilibradas. Um índice elevado de rejeição nesse segmento reduz a margem de crescimento da candidatura e aumenta a necessidade de reconstrução de imagem durante a campanha.
Outro aspecto que merece atenção é que campanhas presidenciais são cada vez menos definidas apenas pela identificação ideológica. Questões relacionadas à empatia, estabilidade, capacidade de diálogo e confiança influenciam significativamente a percepção do eleitor, especialmente entre aqueles que ainda não consolidaram sua escolha.
Nesse contexto, o desafio de Flávio Bolsonaro vai além da disputa contra seus adversários. A campanha precisará demonstrar capacidade de ampliar sua interlocução com o eleitorado feminino, reduzir a rejeição e evitar que episódios internos do campo bolsonarista reforcem uma percepção negativa já identificada pelas pesquisas.
A fotografia apresentada pelo Datafolha sugere que esse pode ser um dos principais obstáculos da candidatura. Em eleições majoritárias, lideranças consolidadas dificilmente vencem apenas mobilizando seus apoiadores históricos. Crescer exige conquistar quem ainda tem dúvidas. E, hoje, é justamente entre as mulheres que Flávio Bolsonaro parece encontrar sua maior barreira eleitoral.
