Primeiro encontro após a eleição sinaliza cooperação institucional entre antigos adversários. O desafio agora é transformar o discurso de continuidade em compromissos concretos para o Estado.
A política tem dessas ironias: adversários que passaram semanas trocando críticas acabam sentados à mesma mesa quando as urnas definem o vencedor. Foi o que aconteceu nesta quinta-feira (15), no Palácio Iguaçu, onde Sergio Moro e Ratinho Junior se reuniram para iniciar as tratativas da transição de governo no Paraná.

O encontro marca uma mudança de cenário. Durante a campanha, os dois protagonizaram divergências públicas, enquanto Ratinho defendia a candidatura de Sandro Alex à sucessão estadual. Com a vitória de Moro, porém, a disputa eleitoral dá lugar a uma tarefa que exige menos discursos e mais responsabilidade: preparar a transferência do comando do Estado.
Ratinho Junior afirmou que colaborará com a transição, garantindo acesso às informações necessárias à futura administração. Também disponibilizou o espaço do Chapéu Pensador, no bairro Bigorrilho, em Curitiba, para servir de base de trabalho à equipe de Moro. O vice-governador Darci Piana participou da reunião.
A eleição acabou. Agora começa a cobrança
A disposição para colaborar é positiva e necessária. A administração pública não pode ser tratada como propriedade de um partido, nem a transição pode se transformar em instrumento de retaliação contra adversários políticos.
Mas a cordialidade institucional não elimina as diferenças que marcaram a campanha. Tampouco resolve, por si só, as questões que a nova gestão terá de enfrentar.
Moro assumirá o governo com a responsabilidade de apresentar resultados e demonstrar que sua capacidade de articulação política corresponde à capacidade de administrar o Paraná. O eleitor que lhe confiou o voto não espera apenas declarações de boa convivência com o antecessor. Espera respostas para os problemas do Estado.
O desafio será separar aquilo que merece continuidade daquilo que precisa ser revisto. Obras em andamento, compromissos com os municípios, contratos públicos, investimentos e programas estaduais exigem análise técnica, não decisões motivadas por disputas eleitorais.
Continuidade não significa ausência de mudanças
Durante a campanha, Moro afirmou que pretende dar continuidade a projetos da atual administração. Essa sinalização é importante para reduzir incertezas, especialmente entre prefeitos, empresários e setores que dependem do planejamento estadual.
Entretanto, continuidade não pode significar simplesmente preservar tudo o que foi feito. Uma nova gestão também precisa ter autonomia para avaliar prioridades, corrigir problemas e estabelecer metas próprias.
Da mesma forma, mudanças não devem ser promovidas apenas para marcar diferenças em relação ao antecessor. O critério precisa ser o interesse público, acompanhado de transparência e justificativas consistentes.
É nesse ponto que a transição se torna decisiva: o acesso às informações permitirá que a equipe de Moro conheça a situação financeira do Estado, os compromissos assumidos e os projetos que não podem sofrer interrupções irresponsáveis.
O teste começa em janeiro
A reunião entre Moro e Ratinho Junior representa um primeiro passo para uma passagem de governo organizada. O resultado dessa cooperação, porém, será medido pelo que acontecer nos próximos meses.
A população não ganha nada com uma guerra permanente entre o governador eleito e o grupo político que deixa o Palácio Iguaçu. Também não ganha com uma aliança baseada apenas em fotografias e declarações protocolares.
O que importa é que a transição seja transparente, que as informações sejam compartilhadas e que as decisões administrativas sejam tomadas com responsabilidade.
A campanha terminou, mas a cobrança dos eleitores apenas começou. Para Sergio Moro, o desafio agora é demonstrar que sabe transformar a vitória eleitoral em governo. Para Ratinho Junior, cabe assegurar uma transição republicana, sem confundir divergências políticas com os deveres de quem ainda ocupa o cargo.
No Paraná, a mudança de governo não deve ser uma disputa sobre quem ficará com os méritos do passado. Deve ser uma oportunidade para definir, com clareza, quais resultados serão entregues à população no futuro.
