Evento em Santa Felicidade reuniu prefeitos, vereadores e parlamentares. Sob o discurso de união contra Lula, a direita paranaense busca consolidar seu poder e ampliar a influência nas eleições presidenciais.
A política paranaense ganhou um novo capítulo na noite desta terça-feira (13). Em um jantar realizado no restaurante Madalosso, em Santa Felicidade, Curitiba, Sergio Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros reuniram lideranças políticas para demonstrar apoio à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro.
A dimensão da mobilização, que contou com prefeitos, vereadores, deputados e representantes de diferentes partidos, foi apresentada como demonstração da força da direita no Paraná. Há a informação de que o governador Ratinho Junior teria colaborado através de seus assessores para a mobilização de prefeitos do PSD.
Mas o significado político do encontro vai além da quantidade de participantes. O jantar serviu para aproximar lideranças, reafirmar alianças e sinalizar que o grupo pretende transformar o resultado das eleições estaduais em capital político para a disputa nacional.
O recado foi claro: Sergio Moro quer liderar a articulação paranaense em favor de Flávio Bolsonaro e reunir não apenas os bolsonaristas tradicionais, mas também setores da centro-direita que, em outros momentos, preferiram manter distância das disputas nacionais mais polarizadas.
Moro quer unir a direita — e assumir o comando
Eleito governador do Paraná, Sergio Moro aproveitou o encontro para defender a união da direita e da centro-direita em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro.
A declaração tem importância estratégica. Ao reivindicar para si a tarefa de reunir diferentes correntes políticas, Moro procura ocupar uma posição de liderança que ultrapassa os limites do governo estadual.
O ex-juiz sabe que uma vitória expressiva de Flávio Bolsonaro no Paraná poderá fortalecer sua influência dentro do PL e ampliar sua capacidade de negociação com o futuro governo federal, caso o senador vença a eleição presidencial.
A operação, portanto, tem duas dimensões: nacional, com a mobilização em favor de Flávio, e estadual, com a consolidação de Moro como principal referência política da direita paranaense.
Não se trata apenas de apoiar um candidato. Trata-se de organizar uma estrutura política capaz de distribuir influência, negociar espaços e estabelecer prioridades para os próximos anos.
A presença de lideranças de diferentes partidos reforça essa leitura. Em política, a fotografia coletiva é importante, mas os acordos construídos antes e depois dela costumam ser ainda mais relevantes.
Força eleitoral ou demonstração de poder?
Com o salão do Madalosso lotado, em torno de 2.500 pessoas, o evento provocou congestionamento nas imediações do restaurante, com relatos de demora para chegar ao local.
Um jantar pode mostrar entusiasmo, organização e influência sobre prefeitos e parlamentares. Não comprova, por si só, que todos os participantes compartilhem das mesmas posições ou que a candidatura apoiada pelo grupo terá o mesmo desempenho nas urnas.
A demonstração de força também precisa ser examinada à luz dos interesses dos atores envolvidos. Para prefeitos, a aproximação com um governador eleito pode abrir canais de diálogo sobre obras, investimentos e programas estaduais. Para parlamentares, a construção de alianças pode ampliar o espaço de negociação. Para Moro, o encontro representa a oportunidade de demonstrar que dispõe de uma base política ampla.
Nada disso é necessariamente irregular. É parte do funcionamento da política. Mas é importante distinguir a mobilização eleitoral da articulação de poder que a acompanha.
Eduardo Pimentel também quer o Paraná no centro do jogo político
O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel (PSD), também marcou presença no encontro e defendeu a participação do Paraná no debate sobre os rumos do País. A declaração, embora institucionalmente legítima, ganha significado político em um evento marcado pela articulação da direita em torno de Flávio Bolsonaro. A presença de Pimentel evidencia que essa movimentação busca ultrapassar as fronteiras partidárias e reunir lideranças com diferentes interesses eleitorais. Resta saber se essa aproximação resultará em compromissos concretos para o Estado e seus municípios ou se ficará restrita à formação de um bloco político em torno de um projeto de poder nacional. Afinal, participar do debate sobre o futuro do Brasil é importante; mais importante ainda é deixar claro quais propostas serão defendidas e a quem elas efetivamente beneficiarão.
Lula e Alexandre de Moraes entram no centro do discurso
Outro aspecto do encontro foi o tom de confronto contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, apontados como alvos das críticas no evento.
Moro, por sua vez, afirmou que a prioridade política do grupo no Paraná seria retirar Lula do poder. Também criticou a atuação do governo federal em relação ao Estado e disse esperar que uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro garantisse maior atenção às demandas paranaenses.
O discurso segue uma estratégia conhecida da direita bolsonarista: transformar a disputa eleitoral em um confronto entre campos políticos, mobilizando apoiadores por meio da oposição ao PT e de críticas ao STF.
Essa estratégia pode produzir resultados eleitorais. O antagonismo cria uma identidade comum entre grupos que nem sempre concordam em todos os temas. Quando a prioridade é derrotar um adversário, divergências internas podem ser temporariamente colocadas em segundo plano.
O problema aparece quando a política passa a girar predominantemente em torno de inimigos, em vez de propostas concretas.
Criticar o presidente da República e questionar decisões judiciais são direitos legítimos. O que os eleitores precisam cobrar é que a retórica venha acompanhada de compromissos claros sobre economia, segurança pública, saúde, educação e responsabilidade na administração do Estado.
A política não pode se resumir a quem será derrotado. Também precisa explicar o que será feito depois da vitória.
A união da direita tem limites e interesses próprios
A presença de lideranças de diferentes partidos não significa que a direita paranaense tenha eliminado suas divergências. Significa, antes, que existe um objetivo eleitoral comum capaz de aproximar grupos que disputam espaço e influência.
Moro, Deltan Dallagnol e Filipe Barros possuem trajetórias e bases políticas próprias. A convergência em torno de Flávio Bolsonaro cria uma plataforma comum, mas também abre espaço para disputas futuras sobre protagonismo, alianças e participação nas decisões.
O mesmo vale para os prefeitos e parlamentares que participaram do encontro. A adesão a uma candidatura presidencial pode refletir convicções ideológicas, cálculos eleitorais ou a busca por interlocução com o grupo que comandará o governo estadual.
A política é feita de ideias, mas também de interesses. Fingir que apenas o primeiro elemento existe seria ingenuidade.
A questão relevante é saber se essa união será capaz de produzir um programa consistente ou se permanecerá sustentada principalmente pela oposição a Lula e pela identificação com o bolsonarismo.
O Paraná como peça da disputa presidencial
O encontro em Santa Felicidade mostra que o Paraná ocupa posição importante na estratégia eleitoral de Flávio Bolsonaro. Com Moro eleito governador e lideranças do PL e de partidos aliados mobilizadas, o Estado oferece uma estrutura política capaz de atuar na campanha presidencial.
Para Moro, o desafio será transformar essa força eleitoral em capacidade de governar. A partir de janeiro de 2027, suas decisões serão avaliadas não apenas pela habilidade de organizar aliados, mas pelos resultados concretos da administração estadual.
Para Flávio Bolsonaro, a mobilização representa uma demonstração de apoio em um Estado onde a direita possui presença política expressiva.
Mas o teste decisivo não será o tamanho do jantar, o número de discursos ou a quantidade de fotografias publicadas nas redes sociais. Será a capacidade de convencer os eleitores de que o projeto político defendido pelo grupo oferece respostas para os problemas reais do País.
Reunir aliados é uma demonstração de força. Transformar essa força em propostas, resultados e benefícios para a população é outra história.
