A eleição terminou. Sergio Moro foi eleito governador do Paraná no primeiro turno, com 50,10% dos votos válidos. Mas, passada a comemoração, começa uma fase completamente diferente: a transformação de um projeto eleitoral em uma administração de Estado.
Durante a campanha, Moro construiu sua candidatura em torno de ideias como segurança pública, combate à corrupção, liberdade política, redução da burocracia e um novo ciclo de desenvolvimento econômico. Agora, terá de transformar essas bandeiras em decisões concretas, orçamento, obras, políticas públicas e resultados.
E há uma característica particularmente interessante no ponto de partida do novo governo.
Moro terá de administrar a continuidade e a mudança
Uma das primeiras mensagens de Moro depois da vitória foi a promessa de manter as obras e os projetos do governo Ratinho Junior.
O governador eleito afirmou que pretende conversar com Ratinho para organizar uma transição sem ruptura e declarou que não pretende interromper projetos em andamento. Também afirmou que pretende manter parcerias com prefeitos independentemente de terem apoiado ou não sua candidatura.
Essa posição cria uma espécie de paradoxo político.
Moro venceu apresentando uma candidatura própria e, em vários momentos da campanha, estabeleceu diferenças em relação ao grupo político que governou o Paraná nos últimos oito anos. Mas, depois da eleição, sua primeira sinalização administrativa é de continuidade em áreas importantes.
A partir de 2027, será preciso descobrir onde termina a continuidade e começa o governo Moro.
Menos secretarias, mais gestão técnica
Outro compromisso anunciado pelo governador eleito é a redução do número de secretarias estaduais e dos gastos burocráticos.
Moro afirmou que pretende colocar pessoas com perfil técnico nas secretarias e utilizar a estrutura administrativa para reduzir custos e direcionar mais recursos ao cidadão. Também citou o recebimento de mais de 6 mil contribuições para o plano de governo por meio do projeto “Juntos Paraná 399”.
Essa será uma das primeiras promessas a ser confrontada com a realidade.
Reduzir secretarias não é apenas uma questão de organograma. Envolve fusão de estruturas, redistribuição de competências, cargos, orçamento e definição de prioridades.
O resultado será observado não pelo anúncio, mas pela capacidade de fazer a máquina pública funcionar com a estrutura prometida.
Segurança será uma das vitrines
A segurança pública ocupou espaço importante na campanha de Moro.
Entre as propostas apresentadas esteve a integração de câmeras públicas e privadas com as forças de segurança, além do uso de inteligência e tecnologia para prevenção e repressão ao crime.
No governo, entretanto, uma proposta precisa sair do discurso e entrar no orçamento.
Será necessário definir investimentos, integração entre Polícia Militar, Polícia Civil, guardas municipais e demais órgãos, além de estabelecer metas capazes de medir resultados.
A segurança, portanto, provavelmente estará entre as áreas pelas quais o novo governo será mais cobrado.
A relação com Ratinho será decisiva
Talvez uma das relações políticas mais interessantes dos próximos meses seja justamente entre Moro e Ratinho Junior.
Os dois trocaram críticas durante a campanha. Ratinho apoiou Sandro Alex, enquanto Moro disputou a eleição contra o candidato do grupo governista. Depois da vitória, porém, Moro afirmou que não considera Ratinho seu adversário pessoal e defendeu uma transição sem rupturas.
Essa aproximação administrativa poderá ser importante para preservar projetos em andamento e informações necessárias à transição.
Mas também colocará Moro diante de uma questão política:
até onde manter a agenda do governo anterior sem transformar seu próprio governo em simples continuidade da administração que acabou?
A resposta será dada pelas escolhas que forem feitas a partir de agora.
Brasília será outro campo de batalha
Moro também sinalizou que pretende construir uma bancada paranaense alinhada ao governo estadual em Brasília.
A ideia é articular deputados e senadores para buscar recursos e defender projetos de interesse do Paraná.
Essa articulação poderá ampliar a capacidade de negociação do Palácio Iguaçu com o Congresso Nacional e o governo federal.
Mas também exigirá habilidade política.
Um governador precisa negociar com diferentes forças políticas, inclusive aquelas que não fazem parte de sua base. A capacidade de transformar apoio eleitoral em maioria política será um dos desafios do novo governo.
O maior desafio: sair da campanha e entrar na administração
Sergio Moro chega ao Palácio Iguaçu com uma trajetória política diferente da de seus antecessores recentes.
Foi juiz federal, ministro da Justiça e senador antes de assumir o governo estadual. Agora terá de administrar uma estrutura muito maior e mais complexa do que os cargos que ocupou anteriormente.
O desafio será transformar capital político em capacidade administrativa.
Não haverá mais adversários de campanha para responder diariamente. Haverá problemas concretos: saúde, educação, segurança, estradas, transporte, desenvolvimento regional, equilíbrio fiscal e atendimento aos municípios.
E haverá uma cobrança inevitável: entregar aquilo que foi prometido.
O governo Moro começa com uma contradição interessante
A campanha apresentou Moro como alguém que representaria mudança.
O discurso pós-eleição, entretanto, enfatizou continuidade.
Talvez seja justamente dessa combinação que nascerá a identidade do novo governo: manter aquilo que funciona, modificar aquilo que considera necessário e tentar imprimir uma marca própria à administração estadual.
O eleitor paranaense não terá mais pesquisas para acompanhar.
Terá obras, serviços públicos, decisões administrativas e resultados.
A partir de agora, a pergunta deixa de ser quem venceria a eleição.
A pergunta é muito mais simples — e muito mais difícil de responder: o que Sergio Moro fará com o mandato que recebeu?
É essa resposta que começará a ser construída no primeiro dia de governo.
