Sergio Moro encontrou uma fórmula política que parece cada vez mais confortável: falar de grandes temas nacionais, importar experiências internacionais e transformar segurança pública em uma espécie de vitrine permanente de sua candidatura. O problema é que a eleição que disputa agora não é para presidente da República, nem para ministro da Justiça. É para governador do Paraná.
O episódio é emblemático. O senador Sergio Moro, será o anfitrião do Congresso Fiesp de Segurança Pública, no dia 31/08/2026 (segunda-feira), em São Paulo, que terá como convidado o ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, para falar sobre o combate às organizações criminosas.
Nada contra discutir segurança pública. Ao contrário: o tema é absolutamente relevante para o Paraná.
A questão é outra.
Em algum momento alguém precisa perguntar a Moro: e o Paraná?
De El Salvador para São Paulo, mas onde entra o Paraná?
É curioso que um candidato ao Governo do Paraná esteja tão interessado em importar para o debate eleitoral experiências de outros países e que um evento apresentado como parte de sua agenda de segurança aconteça justamente em São Paulo.
Não é apenas uma questão geográfica. É simbólica.
Moro passou boa parte de sua trajetória política construindo uma imagem nacional. Foi ministro, tornou-se uma figura central da política brasileira e disputou a eleição de 2022 carregando uma marca muito mais nacional do que paranaense.
E há um detalhe que não deveria ser esquecido: em 2022, Moro chegou a tentar transferir seu domicílio eleitoral para São Paulo para disputar uma eleição por aquele Estado. A transferência foi rejeitada pela Justiça Eleitoral paulista e, posteriormente, ele voltou a ter domicílio eleitoral no Paraná e acabou disputando o Senado pelo Estado.
Ou seja, não é uma invenção de adversário dizer que São Paulo já esteve no horizonte eleitoral de Moro.
Esteve. E esteve formalmente.
Importante lembrar que a esposa de Sergio Moro, Rosângela Moro, até 31 de dezembro, é deputado federal por São Paulo.
Agora, quatro anos depois, ele quer governar o Paraná.
É perfeitamente legítimo.
Mas também é legítimo que o eleitor paranaense faça a pergunta mais básica de todas:
O que exatamente Sergio Moro conhece, pretende fazer e tem para dizer sobre o Paraná além de repetir os grandes temas nacionais que o tornaram conhecido?
O Paraná não é um palanque para Brasília
Esse talvez seja o maior problema da estratégia de Moro.
Corrupção; Crime organizado; Lava Jato; PT; Bolsonaro; Segurança pública; Confrontos políticos de Brasília, são assuntos importantes, evidentemente. Mas não governam sozinhos um Estado.
O governador terá de enfrentar problemas concretos de infraestrutura, saúde, educação, transporte metropolitano, habitação, desenvolvimento regional, logística, agricultura, indústria, energia, saneamento, turismo, segurança das fronteiras e relação com os municípios.
O Paraná tem 399 municípios, realidades econômicas completamente diferentes e problemas que não cabem em um discurso de combate ao crime organizado.
É nesse ponto que a experiência salvadorenha pode até ser interessante para um congresso.
Mas uma campanha eleitoral precisa responder a outra pergunta:
qual é o plano de Moro para o Paraná?
Não para Brasília, não para o Brasil, não para o PT. Para o Paraná.
O problema de importar discursos prontos
A segurança de El Salvador é uma realidade específica, com instituições, legislação, território e dinâmica criminal próprios.
O Paraná tem fronteiras internacionais, portos, áreas de fronteira seca, grandes centros urbanos, regiões metropolitanas, cidades médias, áreas rurais e uma estrutura policial própria.
Comparar experiências pode ser útil.
Copiar slogans não é governar.
O risco de transformar a política de segurança em uma coleção de referências internacionais é justamente deixar de discutir aquilo que o cidadão paranaense encontra quando sai de casa.
Quanto tempo leva para uma ocorrência ser atendida? Como combater o crime organizado nas fronteiras? Como integrar Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal e municípios? Como enfrentar roubos e furtos? Como melhorar a investigação? Como ampliar inteligência? Como combater o tráfico de drogas? Como proteger o comércio? Como reduzir a reincidência? Como enfrentar a criminalidade nas regiões metropolitanas?
Essas são perguntas para quem pretende governar o Paraná.
Moro tem uma marca. Falta mostrar um projeto de Estado
A grande vantagem eleitoral de Moro é justamente aquilo que pode se transformar em seu maior problema.
Ele é conhecido. Muito conhecido. Sua imagem nacional está consolidada. Mas conhecimento não é necessariamente conhecimento sobre gestão estadual.
O eleitor pode saber perfeitamente quem é Sergio Moro e, ainda assim, não saber o que Sergio Moro pretende fazer com a saúde pública do Paraná, com o transporte coletivo, com as rodovias estaduais, com a infraestrutura, com a agricultura ou com o desenvolvimento econômico das diferentes regiões.
E essa diferença será cobrada durante a campanha. Porque agora não basta ser uma personalidade nacional.
É preciso ser candidato a governador.
Enquanto isso, a disputa começa a mudar
E aqui está o aspecto político que torna a situação ainda mais interessante.
Sandro Alex vem crescendo nas pesquisas e consolidando uma candidatura construída justamente sobre a ideia de continuidade administrativa e conhecimento do Estado, ao lado de Rafael Greca como vice e de uma ampla aliança partidária.
Em sabatina recente, Sandro afirmou que o Paraná não precisa importar para a política estadual as "brigas de Brasília" e defendeu que as discussões do Estado sejam tratadas a partir de suas próprias necessidades.
É uma diferença de estratégia. De um lado, um candidato com enorme projeção nacional tentando transformar essa projeção em capital eleitoral no Paraná.
De outro, um candidato que precisa transformar sua experiência política e administrativa no Estado em uma candidatura capaz de vencer uma eleição.
É justamente aí que a campanha começa a ficar interessante.
O eleitor vai cobrar respostas
Moro pode organizar quantos congressos quiser, trazer autoridades estrangeiras, discutir experiências internacionais e falar sobre segurança pública.
Tudo isso faz parte do debate democrático.
Mas, quando estiver diante do eleitor paranaense, terá de responder a uma questão muito mais simples e muito mais difícil:
por que Sergio Moro quer governar o Paraná?
E, depois dessa resposta, virão outras cem.
Porque o Paraná não é apenas uma extensão de Brasília.
Também não é uma plataforma para uma eventual carreira política nacional.
E definitivamente não pode ser tratado como um território eleitoral descoberto apenas quando a eleição se aproxima.
Moro teve a oportunidade de escolher São Paulo. A Justiça Eleitoral não permitiu. Voltou ao Paraná, foi eleito senador e agora quer o Governo do Estado.
É legítimo.
Mas a legitimidade da candidatura não elimina a necessidade de prestar contas ao eleitor sobre o que conhece do Estado, o que pretende fazer por ele e qual projeto tem para os próximos quatro anos.
Porque importar a experiência de El Salvador pode render manchete.
Governar o Paraná exige muito mais do que uma boa manchete.
