A nova pesquisa Real Time Big Data sobre a corrida presidencial traz um dado que merece muito mais atenção no Paraná do que a simples disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro.
O levantamento nacional divulgado nesta terça-feira (1º) mostra Lula com 38%, Flávio Bolsonaro com 29% e Augusto Cury com 10% no cenário estimulado. Na espontânea, Lula aparece com 35% e Flávio com 25%. No segundo turno, entretanto, os dois empatam em 44% a 44%.
À primeira vista, é uma pesquisa presidencial.
Para o Paraná, porém, ela precisa ser lida de outra maneira.
Porque o mesmo instituto havia divulgado, poucos dias antes, um levantamento específico no Estado mostrando uma realidade completamente diferente: Flávio Bolsonaro com 44% contra 30% de Lula no primeiro turno e 52% contra 34% em um eventual segundo turno.
Essa diferença entre o Brasil e o Paraná é politicamente relevante.
O Paraná está muito mais à direita do que a média nacional
Enquanto Lula lidera nacionalmente por nove pontos no cenário estimulado da nova pesquisa — 38% contra 29% de Flávio —, no Paraná a situação se inverte de maneira bastante expressiva.
No levantamento estadual realizado entre 24 e 27 de agosto, Flávio alcançou 44%, contra 30% de Lula. No segundo turno, a vantagem chegou a 18 pontos: 52% a 34%.
Não é uma pequena diferença estatística.
É uma característica política do eleitorado paranaense.
E ela pode ter consequências importantes para a eleição estadual.
Mas existe uma armadilha na interpretação desses números: não se pode simplesmente transportar o resultado da eleição presidencial para a disputa pelo Governo do Paraná.
E é justamente aí que começa a parte mais interessante.
Flávio 44%, Moro 35%: o eleitor não vota em pacote fechado
Na mesma pesquisa Real Time Big Data realizada no Paraná, Sergio Moro aparece com 35% na disputa pelo Governo do Estado, Sandro Alex com 23% e Requião Filho com 20%.
Temos, portanto, uma situação curiosa.
O eleitor paranaense apresenta uma preferência presidencial bastante mais forte por Flávio Bolsonaro do que por Lula.
Mas isso não significa que os mesmos 44% estejam automaticamente transferidos para Sergio Moro.
Flávio tem 44%.
Moro tem 35%.
A diferença é de nove pontos.
Isso demonstra que existe um eleitorado paranaense que pode ser identificado como conservador ou de direita no plano nacional, mas que não necessariamente vota de maneira automática no candidato local associado a esse campo político.
Esse detalhe é fundamental.
A eleição estadual tem seus próprios personagens, suas próprias alianças e, principalmente, seus próprios problemas.
A força de Bolsonaro ajuda Moro?
Provavelmente ajuda.
Mas dizer que ajuda não significa dizer que determina.
Moro disputa o Governo pelo PL, o mesmo partido de Flávio Bolsonaro. Isso cria uma conexão política evidente entre as duas candidaturas.
Em uma campanha eleitoral, essa associação pode ser explorada de várias maneiras:
Flávio para presidente. Moro para governador.
É uma mensagem simples.
E mensagens simples costumam funcionar bem em campanhas.
Mas há uma segunda possibilidade.
O eleitor pode gostar de Flávio Bolsonaro para presidente e escolher outro candidato para governador.
A pesquisa mostra que essa possibilidade existe.
Se a transferência fosse automática, Moro deveria estar muito mais próximo dos 44% de Flávio.
Está nove pontos abaixo.
Não é pouca coisa.
E isso cria um problema estratégico para Sandro Alex
Para Sandro Alex, os números presidenciais do Paraná representam um desafio evidente.
O candidato do PSD está inserido em um partido que apresenta Ronaldo Caiado como candidato à Presidência. No Paraná, porém, Caiado aparece com apenas 4% no levantamento presidencial do Real Time. Flávio tem 44%, Lula 30% e Caiado fica no grupo de terceira força.
Isso coloca Sandro diante de uma questão eleitoral delicada.
Até que ponto ele deverá nacionalizar a campanha?
E até que ponto deverá manter a eleição estritamente paranaense?
Se tentar transformar a disputa em um confronto nacional entre esquerda e direita, Sandro pode enfrentar uma dificuldade: o ambiente presidencial do Paraná favorece fortemente o campo bolsonarista.
Mas, se conseguir manter a discussão concentrada em infraestrutura, segurança, saúde, educação, desenvolvimento econômico e na continuidade administrativa, poderá tentar construir uma eleição diferente daquela presidencial.
É uma escolha estratégica importante.
A força de Ratinho Junior entra nessa equação
Existe ainda um personagem que não pode ser ignorado: Ratinho Junior.
Na pesquisa espontânea para presidente realizada no Paraná, o governador aparece com 1%.
O número é pequeno, mas sua importância política é muito maior do que o percentual.
Ratinho não é candidato à Presidência.
É governador do Paraná.
E a eleição estadual será, em grande medida, uma avaliação do legado de seu governo.
Isso interessa diretamente a Sandro Alex, que esteve à frente da Secretaria de Infraestrutura e Logística durante praticamente todo o período mais recente da administração estadual e apresenta sua candidatura como continuidade desse projeto.
Portanto, a pergunta eleitoral não será apenas:
"Você vota em Flávio ou Lula?"
Para o eleitor paranaense, haverá outra:
"Você quer continuar o modelo de Ratinho Junior ou mudar o governo do Estado?"
São perguntas diferentes.
E o candidato que conseguir separá-las poderá alterar a lógica da disputa.
Requião Filho também pode explorar essa nacionalização
Do outro lado, Requião Filho tem uma oportunidade evidente.
Se a eleição para governador for transformada em um plebiscito sobre Bolsonaro, Lula e a polarização nacional, seu espaço pode ficar mais estreito.
Mas se conseguir convencer o eleitor de que a eleição estadual deve ser decidida por problemas locais, pode tentar escapar dessa lógica.
Esse é um dos grandes desafios da campanha.
A eleição presidencial tem uma polarização muito mais consolidada.
A estadual, não necessariamente.
E as pesquisas mostram isso.
Moro lidera a corrida estadual, mas está muito abaixo do percentual obtido por Flávio na disputa presidencial.
Sandro e Requião estão próximos.
Ou seja, a eleição estadual possui dinâmica própria.
O dado mais importante: 35% ainda não decidiram espontaneamente a eleição presidencial no Paraná
Há outro número que merece atenção.
Na pesquisa espontânea para presidente no Paraná, 35% não souberam ou não responderam. Flávio aparece com 25% e Lula com 22%.
É uma diferença importante em relação ao cenário estimulado.
Quando os nomes são apresentados, Flávio vai a 44% e Lula a 30%.
Quando os nomes desaparecem, Flávio cai para 25% e Lula para 22%.
Isso mostra que, embora o eleitorado paranaense tenha uma orientação presidencial bastante favorável a Flávio, a eleição ainda não está completamente cristalizada na cabeça de uma parcela expressiva dos eleitores.
E isso acontece justamente quando a campanha começa a ganhar força com rádio, televisão e redes sociais.
O efeito da propaganda pode ser decisivo
O levantamento estadual foi realizado entre 24 e 27 de agosto.
A propaganda eleitoral gratuita começou oficialmente em 28 de agosto.
Portanto, essa pesquisa praticamente não captura os efeitos da televisão e do rádio sobre o eleitorado.
Esse detalhe é fundamental.
As próximas pesquisas serão muito mais interessantes.
Será preciso observar se a vantagem de Flávio no Paraná permanece na casa dos 14 pontos no primeiro turno e 18 no segundo.
E, principalmente, se essa força nacional começa a aumentar ou diminuir a vantagem de Moro na disputa pelo Governo.
Porque aí poderemos começar a identificar se existe realmente um efeito de transferência de voto entre a candidatura presidencial e a estadual.
A pesquisa nacional de hoje traz ainda outro alerta
O resultado nacional desta terça-feira mostra que o cenário presidencial está muito menos definido do que a liderança de Lula no primeiro turno poderia sugerir.
Lula tem 38% e Flávio 29%.
Mas no segundo turno os dois aparecem rigorosamente empatados: 44% a 44%.
E Ronaldo Caiado aparece numericamente à frente de Lula, por 45% a 43%, embora dentro da margem de erro.
Isso significa que a eleição presidencial ainda está aberta.
E, se ela está aberta nacionalmente, seria ainda mais imprudente imaginar que o resultado da eleição estadual do Paraná esteja definido.
A fotografia nacional e a fotografia paranaense são diferentes
Talvez essa seja a principal conclusão.
No Brasil:
Lula 38%
Flávio 29%
No Paraná:
Flávio 44%
Lula 30%
O Paraná não está reproduzindo simplesmente a média nacional.
Está apresentando uma dinâmica própria.
E isso precisa ser considerado por todos os candidatos ao Governo do Estado.
Para Moro, é uma oportunidade.
Para Sandro Alex, é um desafio.
Para Requião Filho, é uma oportunidade de tentar estadualizar a eleição.
E para o eleitor, é um lembrete de que voto para presidente e voto para governador não precisam caminhar juntos.
Aliás, os números indicam que eles já não estão caminhando exatamente juntos.
A grande questão agora é saber se essa diferença permanecerá até outubro.
Porque, se o eleitor paranaense continuar dando a Flávio uma vantagem muito superior à de Moro, teremos uma demonstração clara de que a força do bolsonarismo no Paraná é maior do que a força eleitoral individual de qualquer candidato local.
E, se Moro conseguir aproximar seus 35% dos 44% de Flávio, aí sim poderemos falar em uma transferência mais evidente do voto presidencial para a disputa pelo Palácio Iguaçu.
Por enquanto, a pesquisa mostra uma coisa muito clara: o Paraná pode ser decisivo para a eleição presidencial — mas a eleição do Paraná será decidida pelos paranaenses.
E são duas disputas que, embora aconteçam na mesma urna, não necessariamente serão decididas pela mesma lógica.
