NARRATIVA.política, poder e versão

Porque a esquerda do Paraná irá votar no candidato de Ratinho Junior

O caso Flávio Bolsonaro/Vorcaro pode reorganizar a eleição no Paraná — e abrir mais espaço para Ratinho Junior. Os acontecimentos nacionais envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro começam a produzir reflexos que vão além da disputa presidencial.

R
Redação20/05/2026
Porque a esquerda do Paraná irá votar no candidato de Ratinho Junior

Foto: composição

No Paraná, o impacto político pode ser ainda mais sensível, isso porque a eleição estadual paranaense possui uma característica muito específica: ela mistura fortemente política local com influência nacional, mas sem depender integralmente da polarização Brasília x PT. E é justamente aí que Ratinho Junior parece encontrar vantagem.

Ratinho Junior preservou distância estratégica de Brasília.

Esse está entre os principais ativos políticos do governador do Paraná. Ao longo dos últimos anos, Ratinho Junior manteve relação institucional com Bolsonaro, dialogou com Lula, evitou radicalização nacional e preservou, com muito trabalho e investimentos, a imagem de gestor estadual.

Isso produziu um efeito importante: o governador não ficou preso ao desgaste político permanente de Brasília.

Enquanto a política nacional vive de escândalos, polarização, conflitos judiciais e desgaste ideológico constante, Ratinho construiu uma narrativa regional com obras, infraestrutura, interiorização, gestão, investimento público e aprovação administrativa.

Flávio Bolsonaro ajuda ou prejudica Sergio Moro?

Sergio Moro continua sendo um nome forte na disputa pelo governo do Paraná, pelo menos no universo atingido pelas pesquisas.

Mas existe um detalhe delicado. Moro depende fortemente do eleitorado bolsonarista/conservador. E o caso Vorcaro cria um sério problema para esse campo político: desgaste moral, associação com bastidores financeiros, perda parcial do discurso anti-sistema e desconforto em parte da direita tradicional.

Mesmo que Moro não esteja diretamente envolvido no caso, o ambiente político tende a gerar desgaste indireto por associação ideológica. Especialmente porque Moro precisa do eleitor bolsonarista, mas também tenta preservar imagem técnica e ética.

A esquerda sofre no Paraná. Esse talvez seja hoje o maior problema do campo progressista estadual. Requião Filho aparece com alta rejeição (a maior entre os pré-candidatos), dificuldade de expansão, pouca capilaridade estadual e teto eleitoral aparentemente limitado. Além disso, parte significativa do eleitor petista não possui forte conexão emocional com o PDT no Paraná.

E existe outro fator decisivo: o PT paranaense jamais esqueceu o papel de Sergio Moro na prisão de Lula.

Isso cria um bloqueio político muito forte, praticamente intransponível.

A esquerda pode adotar voto estratégico contra Moro.

Esse cenário começa a ser discutido silenciosamente nos bastidores políticos. Se a eleição caminhar para Moro x Sandro Alex, candidato apoiado por Ratinho Junior, parte do eleitorado de esquerda poderá entrar numa lógica pragmática: evitar a vitória de Moro. E eleitor de esquerda, não anula voto. E isso não seria totalmente novo na política brasileira. Em eleições polarizadas, setores ideológicos frequentemente fazem voto útil, voto defensivo ou alianças indiretas.

O eleitor anti-Moro.

Esse pode vir a ser o movimento mais inteligente do grupo governista. Sandro Alex poderá tentar ocupar o campo da gestão, continuidade administrativa, moderação e estabilidade política. Ou seja, uma candidatura menos ideológica e mais gerencial. Isso pode atrair cada vez mais prefeitos, centro político, parte do empresariado, setores conservadores moderados e até eleitores de esquerda anti-Moro.

O interior dará as cartas. Outro ponto importante é que o eleitor do interior tende a valorizar obras, a presença regional, os investimentos e o apoio aos municípios. E Ratinho Junior construiu justamente sua força política nesse ambiente. Se Sandro Alex conseguir herdar parte dessa estrutura, consolidar apoio de prefeitos e crescer no interior, a disputa deixa de ser apenas “quem é mais conhecido” e passa a ser "quem possui maior capacidade de coalizão regional".

Moro tem força eleitoral? Seria um erro subestimar Sergio Moro. Ele continua extremamente conhecido, forte nas cidades médias, competitivo em Curitiba e muito consolidado no eleitorado conservador. Além disso, ainda carrega o símbolo da Lava Jato, do combate à corrupção e forte recall político.

O problema é que notoriedade não garante crescimento infinito e rejeição também pesa em segundo turno.

O segundo turno da rejeição.

Esse é o cenário mais provável hoje. Não necessariamente vencerá o mais amado. Pode vencer o menos rejeitado. E nesse ponto Ratinho Junior aparece muito forte politicamente. Sandro Alex tende a herdar parte dessa imagem, enquanto Moro mantém rejeição alta no campo progressista.

E aí? Os episódios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro não irão destruir o campo conservador no Paraná, mas já fizeram um grande estrago e, seguramente, estarão entre os principais temas de debates nesta eleição.

Essa relação nacional, muito mal explicada até agora, pode e deve alterar o ambiente político da sucessão estadual.

Especialmente porque Ratinho Junior preservou distância da radicalização nacional, Moro continua fortemente associado ao bolsonarismo e a esquerda paranaense parece sem candidatura competitiva própria. Nesse cenário, cresce a possibilidade de voto útil, alianças silenciosas e rearranjos inesperados no segundo turno.

Fato. O Paraná pode viver uma eleição menos ideológica do que parece. Moro lidera pela notoriedade, mas Ratinho domina pela estrutura e aprovação. E a esquerda, sem nome competitivo e sem disposição para apoiar Moro, deve ser empurrada para uma escolha pragmática: impedir a entrada da Lava Jato no Palácio Iguaçu. Como isso pode acontecer? Com o voto no candidato de Ratinho Junior, o deputado federal Sandro Alex.