Uma apuração do Bem Paraná, baseada nos dados de prestação de contas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), revela uma dimensão pouco discutida das eleições: o tamanho da estrutura financeira necessária para colocar uma campanha nas ruas e levar milhões de eleitores às urnas. E os números mostram que o custo das eleições paranaenses vem crescendo de maneira expressiva.
Em 2018, as campanhas eleitorais no Paraná movimentaram R$ 156,15 milhões. Naquele ano, o Estado tinha cerca de 7,97 milhões de eleitores aptos a votar, o que equivalia a aproximadamente R$ 19,59 por eleitor.
Quatro anos depois, a conta praticamente dobrou.
Em 2022, as campanhas movimentaram R$ 296,78 milhões, diante de um eleitorado de 8,48 milhões de pessoas. Na prática, o custo médio chegou a R$ 35,02 por eleitor, uma alta de 79% em apenas quatro anos.
E há uma mudança importante na origem desse dinheiro.
Em 2022, 76,56% dos recursos utilizados nas campanhas paranaenses eram públicos, totalizando R$ 227,21 milhões. Os recursos privados representaram R$ 69,56 milhões, ou 23,44% do total. Em 2018, a participação dos recursos públicos havia sido de 60,75%.
Ou seja: uma parcela cada vez maior da conta eleitoral é financiada pelo próprio sistema público.
Para onde vai o dinheiro?
A apuração do Bem Paraná mostra também onde as campanhas gastaram seus recursos em 2022.
A maior despesa foi com contratação de pessoal, que consumiu R$ 69,24 milhões. Em segundo lugar apareceram os materiais impressos, como os tradicionais santinhos, com R$ 48,24 milhões.
Também foram destinados:
- R$ 39,2 milhões para atividades de militância e mobilização de rua;
- R$ 24,37 milhões para serviços prestados por terceiros;
- R$ 20,54 milhões para produção de rádio, televisão e vídeo;
- R$ 20,07 milhões para impulsionamento de conteúdos.
Os números mostram como a campanha eleitoral se transformou.
A televisão continua importante, mas a disputa digital já representa uma parcela relevante dos gastos. Redes sociais, produção audiovisual, publicidade e impulsionamento passaram a ocupar espaço permanente na estratégia dos candidatos.
Deputados movimentam a maior fatia
Não é necessariamente nas disputas majoritárias que está a maior parte do dinheiro.
Em 2022, as candidaturas a deputado federal consumiram R$ 154 milhões no Paraná, enquanto as campanhas para deputado estadual movimentaram R$ 79,8 milhões.
Para comparação, foram destinados R$ 18,18 milhões às campanhas para o Senado e R$ 18,96 milhões para governador.
A explicação é relativamente simples: são muitas vagas em disputa e, consequentemente, um número muito maior de candidatos tentando conquistar espaço, visibilidade e votos.
Em 2026, o Paraná elegerá 30 deputados federais, 54 deputados estaduais, dois senadores e um governador.
O dinheiro também movimenta uma indústria
Outro dado interessante levantado pelo Bem Paraná é o dos fornecedores que mais receberam recursos das campanhas em 2022.
O Facebook Serviços Online do Brasil recebeu R$ 10,42 milhões. Na sequência aparecem a Gerez Branding, com R$ 5 milhões; Google Brasil Internet, com R$ 3,93 milhões; Arte Lux Produções Cinematográficas, com R$ 3,35 milhões; e LYS Filmes, com R$ 3,26 milhões.
Isso demonstra que a eleição movimenta uma cadeia econômica que vai muito além dos partidos e candidatos.
São profissionais de comunicação, produtoras, gráficas, empresas de tecnologia, equipes de rua, consultorias, agências e fornecedores de serviços que passam a trabalhar durante meses em torno do processo eleitoral.
E quanto custará a eleição de 2026?
Essa é a pergunta que fica.
Se em 2018 foram R$ 156 milhões e em 2022 quase R$ 297 milhões, seria precipitado simplesmente projetar uma cifra para 2026 sem os dados consolidados. Mas a série histórica mostra uma tendência bastante clara: o custo das campanhas cresceu muito mais rapidamente do que o eleitorado.
E há ainda um fator que pode aumentar as despesas deste ano: a possibilidade de segundo turno para o Governo do Paraná.
Em 2022, não houve segundo turno na disputa pelo Palácio Iguaçu. Em 2026, diante do cenário apresentado pelas pesquisas e da proximidade entre os principais candidatos, a realização de uma segunda votação é uma possibilidade concreta. Um eventual segundo turno significaria mais tempo de campanha, mais propaganda e novas despesas.
No fim, a expressão "quanto custa um voto?" precisa ser entendida com cuidado.
Não significa que cada eleitor tenha literalmente um preço. O cálculo serve para dimensionar quanto dinheiro é movimentado para conquistar a preferência de cada eleitor.
E essa é uma discussão importante para uma democracia.
A eleição é o momento em que o cidadão escolhe seus representantes, mas também é um dos maiores ciclos de movimentação de recursos públicos e privados do país. Saber de onde vem o dinheiro, onde ele é gasto e como as campanhas prestam contas deveria fazer parte do interesse de todo eleitor.
A apuração do Bem Paraná, portanto, ajuda a colocar números em uma discussão que normalmente fica escondida atrás de jingles, santinhos, carreatas, programas de televisão e postagens nas redes sociais.
Porque, antes de o eleitor escolher o candidato, existe uma máquina eleitoral milionária trabalhando para conquistar seu voto.
E a conta, no final, é paga por alguém.
Leia a apuração completa do Bem Paraná
