A decisão da Justiça do Paraná de afastar por 90 dias o vereador Lórens Nogueira (PP) do cargo é mais um capítulo de um caso que já ultrapassou os limites da política e entrou definitivamente no campo da Justiça. O parlamentar é réu em ação penal por concussão, em investigação relacionada à chamada “rachadinha”, e agora também enfrenta um processo político que pode terminar na cassação de seu mandato.
E talvez a principal mensagem desse episódio seja justamente a que dá título a esta análise: que sirva de exemplo.
Segundo o Ministério Público do Paraná, Lórens teria exigido de uma servidora comissionada a devolução de parte de sua remuneração. A denúncia aponta cinco episódios, entre novembro de 2025 e abril de 2026, e atribui ao vereador o crime de concussão. A pena prevista para o delito é de 2 a 12 anos de reclusão, além de multa.
O caso ganhou dimensão ainda maior depois que o vereador foi filmado recebendo R$ 5,6 mil em dinheiro vivo de uma servidora. A defesa sustenta que o valor correspondia ao pagamento de um empréstimo pessoal de aproximadamente R$ 12 mil e nega a prática criminosa.
É importante fazer a distinção jurídica: Lórens Nogueira ainda não foi condenado. A ação penal está em andamento e ele tem direito à ampla defesa e à presunção de inocência. O afastamento cautelar também não equivale a uma condenação.
Mas há uma dimensão política que não depende do resultado final do processo criminal.
Dinheiro público não pode virar moeda particular
A chamada rachadinha é especialmente grave porque atinge justamente um dos pontos mais sensíveis da administração pública: a utilização da estrutura do Estado para benefício particular.
O salário de um servidor público não é um favor concedido pelo parlamentar. É remuneração decorrente de trabalho. Quando existe uma exigência para que parte desse salário seja devolvida ao agente político, a relação entre representante e servidor deixa de ser institucional e passa a ser uma relação de poder.
É por isso que denúncias dessa natureza precisam ser investigadas com rigor.
E o episódio de Curitiba demonstra que os órgãos de controle estão dispostos a avançar.
Além do afastamento judicial, a Comissão Processante da Câmara Municipal de Curitiba recomendou a cassação do mandato. O processo agora deverá ser encaminhado à Presidência da Câmara para que o plenário decida. Para cassar o mandato, são necessários 26 dos 38 votos dos vereadores.
Ou seja, Lórens terá de enfrentar duas frentes distintas: a Justiça e seus próprios colegas de Câmara.
A política também precisa dar respostas
É justamente aqui que o caso ganha uma dimensão que vai além da situação individual do vereador.
A Câmara Municipal de Curitiba precisa demonstrar que não existe corporativismo quando estão em jogo suspeitas envolvendo dinheiro, servidores e o exercício do mandato.
Se as provas forem suficientes para justificar uma punição política, ela deverá ocorrer dentro das regras estabelecidas. Se não forem, o vereador terá o direito de permanecer no cargo.
O que não pode acontecer é o processo ser tratado como uma disputa entre grupos políticos.
A política precisa entender que mandato eletivo não é propriedade particular.
Quem recebe votos recebe, ao mesmo tempo, uma responsabilidade. E essa responsabilidade inclui administrar recursos públicos, respeitar servidores e prestar contas de seus atos.
O afastamento também protege a investigação
A decisão judicial não apenas afastou Lórens por 90 dias. Também determinou que ele não mantenha contato, direta ou indiretamente, com as pessoas envolvidas na investigação e não frequente as dependências da Câmara Municipal.
São medidas cautelares que têm uma finalidade bastante objetiva: preservar a investigação e evitar eventual interferência sobre pessoas ou elementos relacionados ao caso.
Isso demonstra que o episódio chegou a um nível de gravidade que não pode ser minimizado como simples disputa política.
E aqui está outra lição.
Quanto maior o poder, maior deve ser a responsabilidade — e maior também deve ser a fiscalização.
Que sirva de exemplo
Curitiba precisa olhar para esse caso não apenas como mais uma crise envolvendo um vereador.
Precisa enxergá-lo como um alerta.
A população não pode aceitar que o mandato seja utilizado como instrumento de pressão sobre servidores. Não pode aceitar que dinheiro público seja tratado como extensão do patrimônio privado de quem ocupa um cargo eletivo. E não pode admitir que a defesa da ética seja apenas discurso de campanha.
Se a investigação confirmar as acusações, haverá uma resposta judicial e política.
Se não confirmar, caberá à Justiça reconhecer a inocência do acusado.
Mas, independentemente do resultado, fica uma mensagem que deveria ser permanente: quem ocupa um cargo público precisa saber que seus atos serão fiscalizados.
E talvez seja justamente isso que a democracia precisa mostrar com mais frequência.
Não se trata de comemorar a queda de um político. Trata-se de mostrar que o mandato não dá imunidade para práticas ilícitas, o cargo não é salvo-conduto e o dinheiro público não pertence ao agente político.
Por isso, o caso Lórens Nogueira precisa ser acompanhado até o fim, com respeito ao devido processo legal e sem prejulgamentos.
Mas também sem relativizações.
Que sirva de exemplo para quem exerce mandato hoje e para quem pretende exercê-lo amanhã.
Porque a política precisa voltar a entender uma regra elementar: o poder pertence ao cidadão. O mandato é temporário. E o dinheiro público tem dono: a sociedade.
