A eleição de Sergio Moro para o Governo do Paraná encerrou um ciclo de oito anos de Ratinho Junior no Palácio Iguaçu, mas não encerrou a influência política do grupo que comandou o Estado desde 2019. Ao contrário: Ratinho deixa o governo com uma estrutura partidária robusta, uma bancada numerosa na Assembleia Legislativa, presença espalhada pelos municípios e alta aprovação popular — um capital político que continuará existindo fora do Palácio Iguaçu.
A vitória de Moro, com 50,10% dos votos válidos, interrompeu a tentativa do PSD de manter o governo com Sandro Alex, que terminou em segundo, com 25,37%.
Mas seria um erro interpretar o resultado simplesmente como o desaparecimento do grupo de Ratinho. O eleitorado escolheu Moro para governar, mas não desmontou a estrutura política construída pelo PSD.
O legado político de Ratinho
Ratinho Junior chega ao final de seu segundo mandato com índices elevados de aprovação. Pesquisa do Paraná Pesquisas divulgada em maio registrava 79,6% de aprovação ao governo, com 67,9% das avaliações entre ótima e boa.
Esse patrimônio político ajuda a explicar por que a derrota de Sandro Alex não pode ser confundida com uma derrota eleitoral completa do PSD.
Na Assembleia Legislativa, o partido elegeu 14 deputados estaduais, empatando com o PL como maior bancada da próxima legislatura. A nova composição terá 54 deputados e 23 estreantes.
Ou seja, Moro assumirá o governo tendo diante de si uma Assembleia na qual o PSD continuará sendo uma força decisiva.
E existe ainda uma dimensão municipal. O partido mantém uma ampla rede de prefeitos e lideranças locais, além de controlar a Prefeitura de Curitiba, comandada por Eduardo Pimentel. Essa capilaridade não desaparece com a mudança do governador.
A campanha deixou marcas
É justamente aí que começa a parte mais interessante da relação entre Moro e Ratinho.
Durante a campanha, os dois estiveram em lados opostos. Ratinho escolheu Sandro Alex como candidato do grupo governista e fez uma campanha dura contra Moro. Houve inclusive disputa judicial em torno do uso da imagem e de declarações antigas do governador pelo candidato do PL.
Em determinado momento, Ratinho chegou a afirmar que havia mudado de opinião sobre Moro e criticou duramente o senador.
A eleição, portanto, não foi apenas uma disputa entre dois candidatos. Foi também uma disputa entre dois projetos de poder dentro da direita e da centro-direita paranaense.
Moro venceu a eleição. Mas Ratinho continua tendo partido, bancada, prefeitos, lideranças e capital eleitoral.
É essa equação que o novo governador terá de administrar.
Moro já sinaliza que quer outro estilo de governo
Logo depois da eleição, Moro apresentou algumas de suas primeiras prioridades: redução do número de secretarias, escolha técnica do secretariado, combate ao crime organizado, mudanças na saúde e maior fiscalização dos contratos de concessões.
O discurso indica que Moro pretende imprimir uma marca própria ao governo, em vez de simplesmente dar continuidade administrativa ao modelo de Ratinho.
Ao mesmo tempo, o governador eleito afirmou que pretende manter diálogo com prefeitos e deputados independentemente de quem apoiaram na eleição.
É uma declaração importante porque Moro não terá uma Assembleia inteiramente sob seu comando. Precisará construir maioria para aprovar seus projetos — e o PSD estará entre os principais interlocutores.
A política nacional pode aproximar o que a eleição estadual separou
Há, entretanto, um elemento novo no tabuleiro: Moro e Ratinho estarão do mesmo lado no segundo turno presidencial.
Ainda em agosto, Ratinho Junior afirmou que apoiaria quem estivesse contra Lula caso seu candidato, Ronaldo Caiado, não chegasse à segunda etapa. Na mesma entrevista, admitiu expressamente a possibilidade de apoiar Flávio Bolsonaro.
Com Flávio no segundo turno, essa convergência deixa de ser hipotética.
Moro, Ratinho e boa parte do grupo político paranaense estarão agora envolvidos na mesma disputa nacional.
Isso cria uma situação curiosa: os dois políticos que passaram boa parte da campanha estadual trocando críticas estarão, no segundo turno presidencial, defendendo o mesmo candidato.
Essa aproximação, porém, não significa necessariamente uma reconstrução da aliança estadual que existia — ou que alguns tentaram apresentar como existente — antes da campanha.
A disputa pelo governo produziu uma nova realidade política.
O teste começa em janeiro
A relação entre Moro e o grupo de Ratinho será um dos principais fatos políticos do Paraná a partir de 2027.
Existem, basicamente, três espaços em que essa relação será testada.
- O primeiro é a Assembleia. Moro precisará negociar com uma bancada do PSD que continuará sendo numerosa. O partido poderá apoiar projetos do novo governo quando houver convergência, mas também terá força para apresentar suas próprias posições.
- O segundo são os municípios. Um governador não governa apenas com deputados. Prefeitos são fundamentais para obras, convênios, investimentos e execução de políticas públicas. A presença do PSD nas prefeituras será, portanto, um fator permanente nas relações com o novo governo.
- O terceiro é Curitiba. Eduardo Pimentel permanece à frente da capital e é uma das principais figuras do grupo político de Ratinho. A relação entre o prefeito e o novo governador será particularmente observada, inclusive porque Pimentel já começou a construir seus próprios movimentos políticos dentro do campo da direita.
Um novo equilíbrio de forças
A eleição não produziu simplesmente a substituição de Ratinho por Moro.
Produziu um novo equilíbrio de forças.
Ratinho deixa o Palácio Iguaçu, mas leva consigo um partido forte, uma bancada expressiva e uma rede política construída durante dois mandatos. Moro chega ao governo com uma vitória eleitoral inequívoca, uma agenda própria e uma bancada federal paranaense que também terá nomes próximos ao seu campo político.
No Senado, a partir de 2027, o Paraná terá Filipe Barros e Deltan Dallagnol eleitos diretamente e Luis Felipe Cunha ocupando a cadeira que Moro deixará. Moro, portanto, perde a cadeira em Brasília, mas mantém uma conexão política importante com o Senado.
E há ainda a eleição presidencial.
No Paraná, Moro e Ratinho foram adversários na eleição estadual. Em Brasília e na disputa presidencial, estarão novamente no mesmo palanque.
É justamente nessa contradição que estará boa parte da política paranaense dos próximos anos.
Ratinho deixa o governo, mas não deixa a política.
Moro chega ao governo, mas terá de governar um Estado onde o grupo que derrotou nas urnas continua tendo força.
A eleição terminou. A disputa pelo espaço político no Paraná, não.
