Se havia alguma dúvida sobre como Ratinho Junior pretende participar da campanha eleitoral, ela começou a desaparecer nesta segunda-feira. Em entrevista à CBN, o governador abandonou a cautela habitual das declarações políticas e foi direto ao ponto ao fazer sua avaliação dos dois principais adversários de seu candidato, Sandro Alex. A síntese foi curta e politicamente calculada: “um é o atraso; o outro, a burocracia que não conhece o Estado”.
Ratinho não precisou sequer citar os nomes na mesma frase. O contexto deixou claro que estava falando de Requião Filho e Sergio Moro. E, ao fazer isso, colocou a eleição em uma perspectiva que deverá dominar boa parte da campanha: de um lado, a defesa da continuidade do projeto que governa o Paraná; de outro, duas alternativas que o governador procura apresentar como incapazes de conduzir o Estado no momento atual.
Foi, em outras palavras, Ratinho Junior dando nomes aos bois.
A estratégia não é casual. Depois do primeiro debate entre os candidatos, no qual Sergio Moro não compareceu, Sandro Alex ganhou uma oportunidade importante de se apresentar ao eleitor. E o governador percebeu que chegou a hora de deixar de falar apenas sobre alianças e começar a falar diretamente sobre a eleição.
Ratinho fez questão de defender o desempenho de Sandro no debate e destacou justamente aquilo que pretende transformar na principal credencial do candidato: conhecimento do Paraná, experiência administrativa e participação na construção do atual governo. Segundo o governador, Sandro participou da elaboração do plano de governo, ajudou no planejamento e esteve envolvido na execução de grandes obras desde o início da gestão.
É uma narrativa bastante clara: Sandro não seria apenas o candidato escolhido por Ratinho Junior; seria alguém que conhece por dentro a máquina pública e o projeto que produziu os resultados que o governo apresenta como suas principais realizações.
E é aí que entra a crítica aos adversários.
Ao definir um como “atraso” e o outro como uma “burocracia que não conhece o Estado”, Ratinho tenta estabelecer uma divisão simples para o eleitor: experiência e continuidade de um lado; risco, retrocesso ou desconhecimento do Paraná do outro.
Pode-se concordar ou não com essa avaliação, mas politicamente ela é eficiente.
Requião Filho carrega o sobrenome e a tradição política do pai, Roberto Requião, ex-governador do Paraná por três mandatos. Para Ratinho, esse passado representa uma concepção de Estado que precisa ser superada. Já Sergio Moro, embora tenha forte projeção nacional e uma trajetória construída principalmente no Judiciário e na política federal, é apresentado pelo governador como alguém que não possui a mesma experiência administrativa e conhecimento territorial necessários para comandar o Paraná.
A mensagem de Ratinho é, portanto, bastante objetiva: governar o Paraná não seria a mesma coisa que fazer política em Brasília ou reproduzir modelos do passado.
O governador decidiu entrar no jogo
Há também uma mudança importante de comportamento.
Ratinho Junior vinha conduzindo a sucessão com enorme cuidado. Trabalhou durante meses para montar a chapa, acomodou interesses partidários, levou Rafael Greca para a vice de Sandro Alex, consolidou Alexandre Curi e Cristina Graeml na disputa pelo Senado e conseguiu chegar ao fim das convenções com uma ampla coalizão.
Agora, a fase das negociações acabou.
É campanha.
E o governador, ao que tudo indica, decidiu assumir o papel de principal cabo eleitoral de Sandro Alex.
Na entrevista, ele não apenas elogiou seu candidato. Fez uma defesa explícita da continuidade da gestão, lembrando indicadores econômicos, educação, saúde, sustentabilidade, inovação e infraestrutura. Citou o Paraná como quarta maior economia do país e afirmou que o Estado tem condições de buscar a terceira posição. Também destacou os resultados que atribui à atual administração, como a liderança nacional em educação e os avanços no Porto de Paranaguá.
A lógica é evidente: se a gestão é boa, por que interrompê-la?
Essa será provavelmente uma das principais perguntas que Sandro Alex levará para a campanha.
E Ratinho sabe que existe uma dificuldade: Sandro ainda é menos conhecido do eleitorado do que Moro e Requião Filho. O próprio governador reconheceu essa questão, mas aposta que, à medida que a campanha avançar, o eleitor conhecerá melhor a trajetória do candidato.
A disputa começa a ganhar contornos mais definidos
A declaração também mostra que a campanha entrou em uma fase mais agressiva.
Moro já partiu para ataques contra Sandro Alex, questionando aspectos da campanha e provocando reação da equipe jurídica do candidato. Requião Filho, no debate da Band, concentrou críticas em políticas do governo Ratinho Junior.
Agora, o governador responde diretamente.
E isso muda o jogo.
Até aqui, Sandro Alex era o candidato que precisava se apresentar. A partir de agora, a tendência é que a própria figura de Ratinho Junior seja incorporada de maneira cada vez mais explícita à campanha. Sandro defenderá Ratinho, e Ratinho defenderá Sandro.
É uma aposta arriscada, mas coerente.
Se o governo possui aprovação suficiente para funcionar como ativo eleitoral, a associação pode impulsionar Sandro. Se houver desgaste ou rejeição significativa, a mesma associação poderá ser explorada pelos adversários.
É justamente por isso que a fala de Ratinho na CBN é mais importante do que parece.
Ele não está apenas criticando Moro e Requião Filho. Está definindo a narrativa eleitoral que pretende colocar em circulação: o Paraná vive um bom momento, não pode parar e precisa escolher alguém que conheça o Estado e tenha participado da construção dos resultados apresentados pela atual administração.
E, nesse discurso, Sandro Alex é apresentado como o herdeiro natural desse projeto.
No fundo, Ratinho Junior fez aquilo que todo candidato de governo precisa fazer quando começa a campanha: colocou seu governo na vitrine e chamou os adversários para comparar resultados.
Agora caberá a Moro e Requião Filho responderem.
Porque, depois de Ratinho Junior “soltar o verbo” e dar nomes aos bois, a eleição do Paraná começa a ficar muito mais clara: não será apenas uma disputa de nomes. Será também um plebiscito sobre o legado de Ratinho Junior e sobre quem, entre continuidade, oposição e mudança, conseguirá convencer o eleitor de que está mais preparado para conduzir o Paraná.
